domingo, maio 18, 2008

::: Amores impossíveis :::
Tati Bernardi

Desculpem o trocadilho infame, mas a vida é feita de altos e baixos. Altos, fortes, morenos, sensuais, possíveis e aquele baixinho, meio esquisito, que não sai da sua cabeça.
Impressionante como a gente sofre por nada. Um cheiro que mexe com você, um jeito de olhar contido, uma idéia inteligente, várias na verdade. Não, não é nada disso, a gente sofre é pela impossibilidade.
Desde que o mundo é mundo não há nada mais afrodisíaco do que a proibição.
E se a Julieta tivesse visto o Romeu acordar com mau hálito? E se o Romeu descobrisse o chulé da Julieta? Convivência é foda.
Pois é, aquele baixinho esquisito não pertence ao grupo dos amores possíveis, a graça dele pode durar uma eternidade, dependendo do seu grau de estupidez criativa.
Ele não quer nada com você, já tem alguém, pertence a um caminho que passa longe do seu, sabe cumé? Pertence ao campo dos idealizados, sonhados e distantes, o que faz dele enorme, lá no pedestal.
E nada melhor do que as lacunas da improbabilidade para esquentar uma paixão. Nessas lacunas você tem espaço para criar a história como quiser, ganha poder, inventa. Ele é seu, seu personagem.
Nesses espaços livres você coloca todos os seus sonhos, toda a sua imaginação. Cenas completas com fundo musical e palavras certas, finais e desfechos inesperados.
Quando você menos espera, ele faz mais parte da sua vida do que você mesma.
Mas a realidade aparece mais cedo mais tarde, vem como uma angústia. Parece vontade de fazer xixi, mas é tesão reprimido. Tesão reprimido deve dar câncer. Era só um cara interessante, agora pode te matar.
Pronto, você está apaixonada. E a paixão tem suas etapas.
Primeiro a negação: eu apaixonada? Imagina. Ele é impossível, nunca vai me dar bola, muito menos duas com o que eu quero no meio.
Depois a maximização: ele é mais inteligente, mais bonito, mais engraçado. E todos os mais possíveis para que ele seja mais desafio para você, mais inveja para as suas amigas, se você aparecer com ele na festa, mais fadinhas dançantes para fazer cosquinha no seu ego problemático.
Daí é a vez da "superlativização": em vez de ser mais, ele é "o mais", o mais fodido, o mais inteligente e o mais gostoso.
E você está a um passo do endeusamento: "ele é único", aí fodeu.
Se ele é único, ele é a sua única chance de ser feliz. E, se ele não quer nada com você, você acaba de perder a sua única chance de ser feliz. Bem-vinda à depressão.
Como você é ridícula, amor platônico é para adolescentes.
Lá fora há milhares de possibilidades de felicidade, de felicidades possíveis. De realidade. E você eternamente trancada na porta que o mundo fechou na sua cara. Fazendo questão de questionar e atentar o inexistente.
Vá viver um grande amor.
Olha, faça um favor para mim, antes de tremer as pernas pelo inconquistável e apagar as luzes do mundo por um único brilho falso, olhe dentro de você e pergunte: estupidez, masoquismo ou medo de viver de verdade?

sexta-feira, maio 16, 2008

::: Rosas :::
Ana Carolina

Você pode me ver
Do jeito que quiser
Eu não vou fazer esforço
Prá te contrariar
De tantas mil maneiras
Que eu posso ser
Estou certa que uma delas
Vai te agradar

Porque eu sou feita pro amor
Da cabeça aos pés
E não faço outra coisa
Do que me doar
Se causei alguma dor
Não foi por querer
Nunca tive a intenção
De te machucar...

Porque eu gosto é de rosas
E rosas, de rosas
Acompanhadas de um bilhete
Me deixam nervosa...

Toda mulher gosta de rosas
E rosas, de rosas
Muitas vezes são vermelhas
Mas sempre são rosas...

Se teu santo por acaso
Não bater com o meu
Eu retomo o meu caminho
E nada a declarar
Meia culpa cada um
Que vá cuidar do seu
Se for só um arranhão
Eu não vou nem soprar

quarta-feira, maio 14, 2008

::: She :::
Elvis Costello (Trilha sonora do filme Um Lugar Chamado Notting Hill)

She
May be the face I can't forget
The trace of pleasure or regret
May be my treasure or the price I have to pay
She
May be the song that summer sings
May be the chill that autumn brings
May be a hundred different things
Within the measure of a day

She
May be the beauty or the beast
May be the famine or the feast
May turn each day into a heaven or a hell
She may be the mirror of my dreams
The smile reflected in a stream
She may not be what she may seem
Inside her shell

She
Who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry
She
May be the love that cannot hope to last
May come to me from shadows of the past
That I'll remember till the day I die

She
May be the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I'll care for through the rough in ready years
Me
I'll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is

She
She, oh she

segunda-feira, maio 12, 2008

::: Dos amores que sei e não sei. :::
Ana Paula Mangeon

Nada sei desse amor encapsulado num só corpo
Desse amor olho, nariz e orelha
Desse amor com endereço e código postal
Desse amor dominical sagrado
Desse amor coerente, desse amor ajustado

Nada sei desse amor namorada e namorado.
Desse amor de acordar do lado
Desse amor cara amassada,
Desse amor escovas de dente.
Desse amor devoto, desse amor escravo.

O amor que sei é aquele que levo comigo
Que passeia na noite, que quer pouso não casa.
Que quer a porta da rua, janela.
Amor delicado sim, mas etéreo.
Amor sem esperança, mas esperado.
Amor amorfo, amor errante.
Amor sem sobrenome, amor instante.

O amor que sei é o amor que de tão breve e tão a esmo
no momento em que se consuma acaba consumido por si mesmo.

domingo, maio 11, 2008

::: Amor não se pede :::
Tati Bernardi

Uma declaração de amor revoltado.

Se implorar resolvesse, não me importaria. De joelhos, no milho, em espinhos, agachada, com o cofrinho aparecendo. Uma loucura qualquer, se ajudasse, eu faria com o maior prazer. Do ridículo ao medo:pularia pelada de bungee jump. Chorar, se desse resultado, eu acabaria com a seca de qualquer Estado, de qualquer espírito.

Mas amor não se pede, imagine só. Ei, seu tonto, será que você não pode me olhar com olhos de devoção porque eu estou aqui quase esmagada com sua presença? Não, não dá pra dizer isso. Ei, seu velho, será que você pode me abraçar como se estivéssemos caindo de uma ponte porque eu estou aqui sem chão com sua presença? Não, você não pode dizer isso. Ei, monstro do lixo, será que você pode me beijar como um beijo de final de filme porque eu estou aqui sem saliva, sem ar, sem vida com a sua presença? Definitivamente, não, melhor não.

Amor não se pede, é uma pena. É uma pena correr com pulinhos enganados de felicidade e levar uma rasteira. É uma pena ter o coração inchado de amar sozinha, olhos inchados de amar sozinha. Um semblante altista de quem constrói sozinho sonhos. Mas você não pode, não, eu sei que dá vontade, mas não dá pra ligar pro desgraçado e dizer: ei, tô sofrendo aqui, vamos parar com essa estupidez de não me amar e vir logo resolver meu problema?

Mas amor, minha querida, não se pede, dá raiva, eu sei. Raiva dele ter tirado o gosto do mousse de chocolate que você amava tanto. Raiva dele fazer você comer cinco mousses de chocolate seguidos pra ver se, em algum momento, o gosto volta. Raiva dele ter tirado as cores bonitas do mundo, a felicidade imensa em ver crianças sorrindo, a graça na bobeira de um cachorro querendo brincar.

Ele roubou sua leveza mas, por alguma razão, você está vazia. Mas não dá, nem de brincadeira, pra você ligar pro cara e dizer: ei, a vida é curta pra sofrer, volta, volta, volta. Porque amor, meu amor, não se pede, é triste, eu sei bem.

É triste ver o Sol e não vê-lo se irritar porque seus olhos são claros demais, são tristes as manhãs que prometem mais um dia sem ele, são tristes as noites que cumprem a promessa. É triste respirar sem sentir aquele cheiro que invade e você não olha de lado, aquele cheiro que acalma a busca. Aquele cheiro que dá vontade de transar pro resto da vida. É triste amar tanto e tanto amor não ter proveito. Tanto amor querendo fazer alguém feliz. Tanto amor querendo escrever uma história, mas só escrevendo este texto amargurado. É triste saber que falta alguma coisa e saber que não dá pra comprar, substituir, esquecer, implorar. É triste lembrar como eu ria com ele.

Mas amor, você sabe, amor não se pede. Amor se declara: sabe de uma coisa? Ele sabe, ele sabe.

terça-feira, maio 06, 2008

::: Não confunda... :::
Ana Paula Mangeon

Nada disso vale nada, cara.
É momento.
Eu só sei dessas felicidades instantâneas.
Depois tudo some, feito Polaroid.

Eu só sei desse vazio onde ecoa o meu nome.

Difícil se livrar da solidão
uma vez que a gente acostuma
e mal percebe a estupidez
que é confundi-la com liberdade.

domingo, abril 20, 2008

::: Leis de Murphy atualizadas :::
(desconheço o autor)

A. Nada é tão fácil quanto parece, nem tão difícil quanto a explicação do manual.

B. Tudo leva mais tempo, do que todo o tempo que você tem disponível.

C. O modo mais rápido de se encontrar uma coisa, é procurar outra.

D. Você sempre encontra, aquilo que não está procurando.

E. Quando te ligam: Se você tem caneta, não tem papel. Se tiver papel, não tem caneta. Se tiver ambos, ninguém liga.

F. Qualquer esforço para se agarrar um objeto em queda, provocará mais destruição do que se deixássemos o objeto cair naturalmente.

G. Se você consegue manter a cabeça enquanto em sua volta todos estão perdendo a deles, provavelmente você não entende a gravidade da situação.

H. Só sabe a profundidade da poça, quem cai nela.

I. Especialista é aquele cara que sabe cada vez mais, sobre cada vez menos.

J. Superespecialista é aquele que sabe absolutamente tudo, sobre absolutamente nada.

K. Guia prático para a ciência moderna: Se mexer pertence à biologia. Se feder pertence à química. Se não funciona pertence à física. Se ninguém entende é matemática. Se não faz sentido é economia ou psicologia.

L. Se o curso que você mais desejava fazer só tem 'n' vagas, pode ter certeza de que você será o aluno 'n' + 1 a tentar se matricular.

M. Oitenta por cento do exame final da sua faculdade será baseado na única aula que você perdeu, baseada no único livro que você não leu.

N. Cada professor parte do pressuposto de que você não tem mais o que fazer senão estudar a matéria dele.

O. A citação mais valiosa para a sua redação, será aquela o nome de cujo autor você não consegue lembrar .

P. Se estiver escrito 'Tamanho único' é porque não serve em ninguém.

Q. Todo corpo mergulhado numa banheira faz tocar o telefone.

R. A probabilidade de o pão cair com o lado da manteiga virado para baixo, é proporcional ao valor do carpete.

S. O gato sempre cai em pé.

T. Não adianta amarrar o pão com manteiga nas costas do gato e o jogar no carpete. Provavelmente o gato comerá o pão antes de cair... Em pé.

U. A fila ao lado, sempre anda mais rápido.

V. Existem dois tipos de esparadrapo: o que não gruda e o que não sai.

W. Na guerra, o inimigo ataca em duas ocasiões: quando ele está preparado, e quando você não está.

X. Toda partícula que voa sempre encontra um olho aberto.

Y. Por que será que números errados nunca estão ocupados?

Z. Quando você está trabalhando em algo realmente importante, ninguém está prestando atenção em você. Mas é só você acessar a Internet, ou dar uma olhada em seus e-mails que certamente até o seu chefe entrará em sua sala.... e vai achar que você não tem nada para fazer.

quinta-feira, abril 17, 2008

::: Um dia de Modess na vida de um homem :::
Luis Fernando Veríssimo

Passei por duras provas para conseguir meu diploma na escola da vida. Mas para entender as mulheres é preciso um estágio. Nesse quesito, eu sou um entusiasta da filosofia gelol: "Não basta ter pau, tem que participar!!!" Por isso, aceitei o desafio de passar um dia com um modess na cueca. A primeira menção do assunto modess me causa uma vontade de gargalhar irracional. Pois eu resolvi que já era hora de encarar esse trauma de forma mais íntima.

O primeiro passo foi comprar a pequena fralda na farmácia. Isso foi fácil. Na verdade, foi até divertido. Fiquei torcendo pra mulher do caixa perguntar, e eu responder de forma bem "casual": "É pra sua namorada???" "Não. É pra mim!!!" Só que ninguém nem tchuns, o que prova que as meninas ficam constrangidas à toa. Na verdade, menstruar é uma parada normal. Acontece nas melhores famílias.

Comprei um não-sei-o-que "mini". Não ligo pra grifes, ainda mais de modess. Mas nesse caso, o que importava era o tamanho. E era mini. Porque, se é pra eu fazer esse papel de usuário de absorventes, pelo menos que eu não passe por arrombado. E a diferença de bitola entre o mini e o super é significativa, o que me fez pensar sobre como algumas mulheres são maiores que as outras...bom. Comprei também um tablete Valda pra dar uma dechavada básica e fui pra casa realizar o sacrifício que me tornaria um membro da classe masculina mais compreensiva com o sexo oposto.

Chegando em casa, fui tentar abrir o pacote. Impulsivo por natureza, o homem não se dá ao trabalho de procurar linhas pontilhadas e, assim sendo, comecei abrindo errado. A abertura na horizontal tem um porquê, se adapta melhor à bolsa e deixa o absorvente mais à mão no caso de uma enxurrada inesperada. Mas eu ignorei, pois não uso bolsa.

Ao retirar a peça do invólucro, você tem que descolar uma abinha para grudar na roupa íntima. Se a menstruação em si não lhe deixar "incomodada", essa almofada intrusa no seu chakra genital com certeza vai. Calculei que o centro do modess ficasse na altura da "terra de ninguém", de forma que ele não invadisse o território peniano. O saco reclamou um pouco, já que não se tratava de uma cueca duplex com teto solar. Um pouco de paciência e um pequeno remanejamento espacial e tudo estava resolvido.

A primeira coisa que se pensa ao compor o modelão usando absorventes externos é: "Será que está marcando?". Por isso é essencial que você faça tudo com a companhia de um aliado. Assim, você vai poder contra com um correspondente nos países baixos, que vai lhe avisar caso o modess cisme em querer se destacar na sua bunda. Ao sair de casa, fingi que não tinha um objeto parasitário ultrajando a minha intimidade. Mas parece que está piscando um outdoor na sua testa avisando "estou de chico". E eu nem tava!!! Que absurdo... Até encontrar seu aliado (a), é sempre bom dar uma conferida nos reflexos que você encontrar pelo caminho, como espelhos e vitrines, pra ver se está marcando.

Dane-se a queda na bolsa de Tóquio ou a reforma ministerial. O que importa é que ninguém perceba que você está aqueles dias. E a preocupação é uma constante. Não dá pra esquecer que seu fundilho está acolchoado.

Ao final de minha jornada, foi um alívio tirar o cuecão e zunir o modess no lixo. Claro que eu tive o cuidado de dobrá-lo e escondê-lo no canto do lixo, antes, envolvendo com muito papel higiênico para que ninguém se deparasse com aquele objeto indesejável depois do almoço. Daí eu entendi por que às vezes tem um montinho de papel enrolado num canto da cestinha do banheiro.Iuch! Se eu tivesse que usar isso a cada ciclo, ia ter uma crise pré-menstrual que ia durar uns trinta dias por mês. E as mulheres nem ganham adicional por insalubridade.

VOCÊS SÃO HEROÍNAS... AMO, ADORO VOCÊS MULHERES MARAVILHOSAS! Agora dá para entender um "pouco" essa tal de TPM!!!!! Aprendi a ser MAIS compreensivo... com vocês. Sintam-se todas acariciadas por mim nestes períodos...
::: Foda-se :::
Millor Fernandes

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional a quantidade de "foda-se!" que ela fala.

Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta. "Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então foda-se!".

O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal. Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

"Pra caralho", por exemplo. Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"? "Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!". O "Não, não e não!" e tampouco o nada eficaz e já em nenhuma credibilidade "Não, absolutamente não!" o substituem. O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo: "Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!". O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicinio.

Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente às situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional. Como comentar a gravata daquele chefe idiota senão com um PHD "porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha. São dessa mesma gênese os clássicos "aspone", "chepone", "repone" e mais recentemente, o "prepone" - presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato "Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba... Diante de uma notícia irritante qualquer "puta-que-o-pariu!" dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e reforçadora derivação "vai tomar no olho do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no olho do seu cu!". Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai a rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar: O 'que você fala? "Agora fodeu de vez!".

Liberdade, igualdade, fraternidade e "foda-se!!!".

segunda-feira, abril 14, 2008

::: Pout Pourri de assuntos :::
Tati Bernardi

O que escrever para a próxima coluna? Listo prováveis assuntos: o mercado de trabalho, homens que cospem catarros horrorosos pelas ruas, minha bunda, sexo sem amor, a necessidade de ter alguém pra chamar de amor, inveja.

Demoro um dia inteiro para me decidir porque sou indecisa.

Não me decido por nenhum porque sou possessiva e filha única: quero todos.

Então vamos lá, seguindo a ordem.

Existe um boato por aí, que publicitário tem a vida mansa e que todos eles são meio loucos. Isso dá uma coceirinha nos estudantes que acham esse papo muito cool e se matriculam aos montes pelas faculdades do país.

Sou redatora publicitária e há dois anos e meio não tenho um salário decente apesar das mais de doze horas trabalhadas por dia. Já mudei de agência seis vezes e já mudei de assunto mais de mil quando amigos e parentes perguntam por que eu não tenho um horário fixo, um salário fixo e um lugar fixo para ir todos os dias.

Aturo a crise mundial, a crise do país, a crise do mercado, a crise do mercado publicitário e a crise de meia-idade de colegas de trabalho com seus leões na mesa, suas baleias em casa e a tara por jovenzinhas deslumbradas e em aprendizado.

O boato da loucura é realidade, ninguém normal atura isso tudo. Quanto a ter a vida mansa, que vão todos para a putaqueupariu antes que eu me esqueça.

Não sei de muitas coisas nesta vida, mas aprendi que entre a paixão e o ódio pela propaganda, tem sempre um catarro.

Vou andando pelas ruas pensando todos os lados bons e ruins da minha profissão: eu crio, eu não tenho um trabalho burocrático, chato, operacional, burro, exato. Eu movimento grana, eu emociono, eu faço as pessoas rirem. Plá, uma catarrada. Eu ganho mal, me deram uma porra de um PC em vez de um Mac, eu fico muito tempo sentada e minha bunda tá horrível, plá, outra catarrada.

Por que diabos esses imundos homens cospem essas melequeiras pelas ruas? Por que diabos? Por que diabos? Como eu odeio isso. ODEIO. Aonde está escrito que o mundo permite essa escatologia exposta à luz do dia? Às vezes é preciso desviar para não sentir respingar resquícios da nojeira no peito do pé. Desejo do fundo do meu coração que todos eles sufoquem entalados com suas crias gosmentas e fiquem tão verdes quanto elas.

Mas ainda mais nojento do que escutar aquela chupada suína que precede o plá da catarrada, é escutar o sugar de tesão de um escroto qualquer que você nunca viu na vida. É aquele suuuuuuuuuuuu delícia, ufffffffffffffffff gostosa.

Não se anima não seu neandertal urbano que o que você está vendo é apenas o poder de uma calça jeans caríssima, que uma redatora publicitária de começo de carreira com seu salário de merda só pode ter comprado em cinco vezes sem juros. Ce não tá vendo querido, que por trás disso é apenas a bunda de uma redatora publicitária que sofre várias crises de mercado e não tem tempo para uma academia?

Tá caída mermão! Já não é mais a mesma. Aliás, isso me lembrou a propaganda, mas este assunto já deu.

E por falar em dar... dar não é fazer amor. Dar é dar. Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido, mas dar é bom pra cacete. Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca, te chama de nomes que eu não escreveria, não te vira com delicadeza, não sente vergonha de ritmos animais. Dar é bom. Melhor do que dar, só dar por dar. Dar sem querer casar, sem querer apresentar pra mãe, sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo. Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral, te amolece o gingado, te molha o instinto. Dar porque a vida de uma publicitária em começo de carreira é estressante e dar relaxa. Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã. Tem caras que você vai acabar dando, não tem jeito. Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem esperar ouvir futuro.

Dar é bom, na hora. Durante um mês. Para as mais desavisadas, talvez anos. Mas dar é dar demais e ficar vazia. Dar é não ganhar. É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro. É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir. É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar: "Que cê acha amor?". Dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito. Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor, esse sim é o maior tesão. Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar o suficiente pra nem perceber as catarradas na rua.

Se você for chata, suas amigas perdoam. Se você for brava, as suas amigas perdoam. Até se você for magra, as suas amigas perdoam. Experimente ser amada.

sábado, abril 12, 2008

::: R.I.P :::
Ana Paula Mangeon

Morreu.
Simples assim.
Um Mo
dois erres
e um eu.

O eu é a parte que dóí,
porque "eu" é a parte
que sempre fica.
::: A Bela e o Burro :::
Tati Bernardi

Ontem depois que você foi embora confesso que fiquei triste como sempre.Mas, pela primeira vez, triste por você.

Fico me perguntando que outra mulher ouviria os maiores absurdos como você, um homem de 32 anos, planejar ir a uma matinê brega com gente sem assunto no próximo domingo e, ainda assim, não deixar de olhar pra você e ver um homem maravilhoso.Que outra mulher te veria além da sua casca?

Você não entende que eu baixei a música do "Midnight Cowboy" e umas boas do Talking Heads, Vinícius de Morais e do Smiths porque achei divertido te fazer uma massa ouvindo algumas músicas que dão vontade de viver. Uma massa que você não vai comer porque está perdendo o paladar para o que a vida tem de verdadeiro e bom. É tanta comida estragada, plastificada e sem sal, que você está perdendo o paladar para mulheres como eu. E você não sabe como vale a pena gostar de alguém e acordar na casa dessa pessoa e tomar suco de manga lendo notícias malucas no jornal como o cara que acha que é vampiro. Tudo sem vírgula mesmo e, nem por isso, desequilibrado ou antes da hora.Você não sabe como isso é infinitamente melhor do que acordar com essa ressaca de coisas erradas e vazias.

Ou sozinho e desesperado pra que algum amigo reafirme que o seu dia valerá a pena. Ou com alguma garotinha boba que vai namorar sua casca. A casca que você também odeia e usa justamente para testar as pessoas "quem gostar de mim não serve pra mim".E eu tenho vontade de segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz.

A gente dá muitas risadas juntos. A gente admira o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente acha que o mundo está maluco e sonha com a praia do Espelho e com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente tem certeza de que nenhum perfume do mundo é melhor do que a nuca do outro no final do dia. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida.E você me olha com essa carinha banal de "me espera só mais um pouquinho". Querendo me congelar enquanto você confere pela centésima vez se não tem mesmo nenhuma mulher melhor do que eu. E sempre volta.Volta porque pode até ter uma coxa mais dura. Pode até ter uma conta bancária mais recheada. Pode até ter alguma descolada que te deixe instigado. Mas não tem nenhuma melhor do que eu. Não tem.

Porque, quando você está com medo da vida, é na minha mania de rir de tudo que você encontra forças. E, quando você está rindo de tudo, é na minha neurose que encontra um pouco de chão. E, quando precisa se sentir especial e amado, é pra mim que você liga. E, quando está longe de casa gosta de ouvir minha voz pra se sentir perto de você. E, quando pensa em alguém em algum momento de solidão, seja para chorar ou para ter algum pensamento mais safado, é em mim que você pensa. Eu sei de tudo. E eu passei os últimos anos escrevendo sobre como você era especial e como eu te amava e isso e aquilo. Mas chega disso.

Caiu finalmente a minha ficha do quanto você é, tão e somente, um cara burro. E do quanto você jamais vai encontrar uma mulher que nem eu nesses lugares deprê em que procura. E do quanto a sua felicidade sem mim deve ser pouca pra você viver reafirmando o quanto é feliz sem mim e principalmente viver reafirmando isso pra mim. Sabe o quê?

Eu vou para a cama todo dia com 5 livros e uma saudade imensa de você. Ao invés de estar por aí caçando qualquer mala na rua pra te esquecer ou para me esquecer. Porque eu me banco sozinha e eu me banco com um coração. E não me sinto fraca ou boba ou perdendo meu tempo por causa disso. E eu malho todo dia igual a essas suas amiguinhas de quem você tanto gosta, mas tenho algo que certamente você não encontra nelas: assunto.Bastante assunto.

Eu não faço desfile de moda todos os segundos do meu dia porque me acho bonita sem precisar de chapinha, salto alto e peito de pomba.Eu tenho pena das mulheres que correm o tempo todo atrás de se tornarem a melhor fruta de uma feira. Pra depois serem apalpadas e terem seus bagaços cuspidos.Também sou convidada para essas festinhas com gente "wanna be" que você adora.

Mas eu já sou alguém e não preciso mais querer ser. E eu, finalmente, deixei de ter pena de mim por estar sem você e passei a ter pena de você por estar sem mim. Coitado.

quinta-feira, março 20, 2008

::: Morte :::
Pedro Bial

Assisti a algumas imagens do velório do Bussunda, quando os colegas do Casseta & Planeta deram seus depoimentos,parecia que a qualquer instante iria estourar uma piada,estava tudo sério demais, faltava a esculhambação, a zombaria, a desestruturação da cena,mas nada acontecia ali de risível, era só dor e a perplexidade, que é mesmo o que causa em todos os que ficam.
A verdade é que não havia nada a acrescentar no roteiro: a morte por si só, é uma piada pronta. A morte é ridículo.Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário.Tem planos para semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório...Colocar gasolina no carro e no meio da tarde...MORRE.Como assim?E os e-mails que você ainda não abriu?O livro que ficou pela metade?O telefonema que você prometeu dar a tardinha para um cliente?
Não sei de onde tiraram esta idéia:MORRER...A troco de que?Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviram para nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente.Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego. Mas não desistiu.Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de duvidas quanto à profissão escolhida...Mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente...
De uma hora pra outro, tudo isso termina...Numa colisão na freeway...Numa artéria entupida...Num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis...Qual é?
Morrer é um chiste.Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida.
Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas...Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas...A apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira.Logo você que dizia: das minhas coisas cuido eu.
Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer.
Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manha.Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito...Isso é para ser levado a sério?
Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem vindo...Já não há muito mesmo a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. ok, hora de descansar em paz.Mas antes de viver tudo?
Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas.Morrer é um exagero.E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas.Só que esta não tem graça.Por isso viva tudo que há para viver.Não se apegue as coisas pequenas e inúteis da vida...Perdoe...Sempre!!

quarta-feira, janeiro 30, 2008

::: Em Círculos :::
Ana Paula Mangeon
Se o que eu corro
não fosse sempre eterno retornar
teria chegado bela ao lugar onde
você não me espera, mas está.
E no instante em que sua surpresa fosse
minha alegria mais intensa.
Minha alma em festa
não se entenderia com sua indiferença.
E eu regressaria àquele dia
em que meu olhar se perdeu para sempre
n'algum lugar no meio da fumaça e do breu.

sábado, janeiro 12, 2008

::: Fadinha de cu é rola ou como ser muito preconceituosa :::
Tati Bernardi

Eu tive um namorado que insistia nas roupas da Les Filós. Ele me dava blusinhas cheias de babados com brilhos e um dia me fez experimentar um sapato altíssimo, rosa e com laços. Eu andei dois metros e teria morrido se a vendedora não tivesse corrido para me segurar na escada.

Eu passei quase um ano sem sentir prazer com ele porque boneca de cera não goza. Transar é que nem comer manga, se você corta em 24 quadradinhos perfeitos e come educadamente de garfo, já deu tempo dela secar. Bom é fiapo no dente e queixo babado.

Eu tive outro namorado que só me deixava usar calcinhas de renda branca porque as de renda preta eram vulgares… e as temáticas escritas "me foda agora ou cale-se para sempre" eram dignas da fogueira da inquisição.

Era um chato, um belo dia eu dei um pé nele e fui ao cinema sozinha e sem calcinha. O máximo da liberdade.

Sempre que eu fiz pose num pufe colorido de uma balada "lounge" ou cara blasé encostadinha no bar, choveu idiotas. Sempre que eu me acabei que nem uma retardada na pista de dança e suei e borrei a maquiagem, eu afastei os playbas idiotas. Graças a Deus. Odeio os playbas e suas namoradinhas fadinhas que acham o Woody Allen um tio até legal quando querem parecer cultas em alguma festa do dj gringo do momento.

Ahhhhhh como é difícil pertencer a alguma coisa. Eu adoro praia, mas qual a exata quantidade de neurônios da galerinha Maresias-surf-Sirena? Eu adoro happy hour, mas qual a chance de eu agüentar o 6:01 com aquela galera "firma" combinando o sapato de couro falso com a bolsa de couro falso acompanhada de um mister MBA que não dá no couro?

A galera que se esconde em bares sujos e usa piercing, definitivamente pessoas freaks e que não passam a certeza de um banho recente, não é a minha. Muito menos a galera black music que faz fila de semelhantes em série em novíssimas casas noturnas na Vila Olímpia (a casa já reabriu 150 vezes com nomes diferentes e donos filhinhos de papais diferentes) e distribuem "flyers" com desconto. A palavra "flyer" me dá vontade de encarnar um americano fanático por joguinhos eletrônicos e sair metralhando todo mundo.

Sei lá, nada contra tá? De repente você gosta de mim e se encaixa num desses perfis… não fica com raiva de mim não, eu sofro sendo assim, eu sofro porque, quando você acha mais da metade do mundo babaca, você passa muito tempo sozinho.

E a galera de "ripongazinhas" que compram na Benedito Calixto e freqüentam os bares de MPB da Vila Madalena? Não, eu gosto muito do Chico e tudo mais, mas aqueles tios de jaqueta de couro com um banquinho, um violão, uma pasta com plásticos e uma platéia entoando "Me levaaaa amor. Amooooooooooooor. Por onde for, quero ser seu paaaaaar" é a morte para mim.

Acho a galera das "balas" muito idiota. O que exatamente é uma pessoa que espera "bater" para começar a se divertir? E pergunta pro cara do lado "e aí? bateu?" e o cara do lado responde "tá batendo, tá batendooooo!". Que porra é essa? Um concurso de punheta? Gente! Por que vocês insistem em parecer idiotas?

Acho rave um saco porque dura demais, não gosto de nada que dura demais num mesmo ritmo, chega uma hora que você implora pra alguém desligar o liqüidificador do seu cérebro. Talvez meu problema seja não beber e nem usar nenhum outro tipo de droga, é o tempo todo a realidade do mundo fazendo clarão na minha mente preconceituosa, as coisas me cansam demais, ter sempre o controle me cansa demais. Mas ficar com cara de idiota e fazer fila pra vomitar não é a minha não. Sei lá, sou careta.

Mas odeio os caretas que acordam cedo e se comportam sempre equilibrados na valsa do mundo corporativo, odeio a comunidade "namorada perfeita" ou coisa semelhante que me contaram que tem no Orkut. Meninas alisadas, de mãos feitas, de sobrancelhas limpas, cheias de posturas, beicinhos e educações. Meninas meigas, que jamais falam "ai o meu caralho, ai a minha buceta cabeludaaa!" mas tratam garçons mal e adoram olhar bundas de homens: bem ali aonde fica a carteira.

Adoro um palavrão, adoro a palavra cu (e acho o cúmulo ela não ter acento). Ela bem usada é uma excelente economia de terapia.

Nunca fui da turma dos nerds, eu estudava pra fazer média 5 e acabar logo com aquele tormento dos grupinhos bacanudos na hora do recreio. Um monte de idiotas fãs do Brendon Walsh. Eu odiava aquele seriado e os topetes de gel. Eu me agarrava com o fotógrafo de 35 anos da escola enquanto aquelas idiotas cheiravam a Giovana Baby.

Tinha a Fabíola, a Dani e a Melissa. Elas falavam pra mim "você até podia ser bonitinha se não fosse estranha". E hoje em dia eu digo a elas "vocês até poderiam ser interessantes se não fossem normais".

O mundo inteiro é mais um em meio a tantos, e eu prefiro ser única no meio do nada.

Na faculdade tinha o grupo das meninas que trabalhavam na Daslu e não tiveram capacidade para entrar na FAAP porque matavam aula do cursinho para fazer unha francesinha. Tinha o grupo que nem pensava em largar a maconha para começar a trabalhar mas comprava camiseta do Che Guevara com o dinheiro do pai gerente de banco. Em todos os lugares que eu trabalhei sempre identifiquei o grupo das meninas caçadoras de homens ricos que trabalham só até descolar um gerente, chefe ou assistente promissor.

Tem as meninas atrasadas mentalmente que com 20 anos nas costas colecionam adesivos de ursinhos, tem as cachorronas em suas calças brancas agarradas atrás de uma banda de axé, pagode ou qualquer merda do gênero e tem também a pior espécie do mundo: a jornalista andrógina superdescolada que de tanto ser contra o machismo acaba virando assexuada. A mulher que não precisa de pinto vira a típica "isso é falta de pinto".

Eu uso All Star vermelho sujo com calça dobrada e tenho uma bolsa Adidas, sim eu sou daquelas publicitárias que combinam almoços, falam da vida dos outros publicitários, namoram publicitários e gostam do Ritz, do Jacaré, do Drosóphila e do Espírito Santo.

Eu sou daquelas publicitárias que só vão a lugares com publicitários e reclamam que só tem publicitários.

Eu sou mais uma escrota escondida numa tribo qualquer para essa vida parecer menos idiota, só que todos os dias a idiotice da vida me dá um tapa na cara e eu corro para ler um livro do Nick Hornby, ver um filme do Woody Allen e ouvir jazz fusion. E aí me sinto mais "publicitária" ainda, é um inferno.

Eu apenas sou inteira e exclusiva quando estou aqui, no escuro do meu quarto escrevendo essas bobagens neste site. Sem ninguém por perto, tirando meleca do nariz, admirando minha foto gorducha com 5 anos de idade. Eu sou inteira aqui, aqui eu não tenho medo de nada, não me acho menos do que ninguém e não tenho medo de ser sozinha.

Eu encontrei minha exclusividade por trás da minha falsa aparência e isso me faz lembrar todos os dias que ralar esses dedos até sangrar é muito melhor do que malhar a bunda numa esteira de academia e pertencer à tribo das meninas que nem precisam abrir a boca para chamar a atenção. E aliás, é bem melhor que elas não abram.

domingo, janeiro 06, 2008

::: A vida é um moinho :::
Cazuza

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora da partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavaste com teus pés
::: Gacela de la Huida :::
Federico García Lorca

Perdi-me muitas vezes pelo mar, com o ouvido cheio de flores recém-cortadas. Com a língua cheia de amor e de agonia, muitas vezes me perdi pelo mar, como me perco no coração de alguns meninos.

Se em algum momento achei ter me encontrado, vi a sua embarcação e soube da minha ingenuidade. No fim, são apenas nuvens e você se escondendo atrás delas. Apaguei todas as minhas certezas, esqueci as minhas vontades e fiquei só. E não há solidão maior que a dúvida. Por um instante, acreditei que você seria a minha bússola.

Porque as rosas buscam em frente uma dura paisagem de osso. E as mãos do homem não têm mais sentido que imitar as raízes sobre a terra.

E essa angústia. Essa ânsia de precisar de algo que não se tem. Porque os caminhos a minha frente não me satisfazem. Eu apenas sinto essa paisagem que não muda, como esses passos que andam em círculos, como esse sol que sempre volta para o mesmo lugar. Eu só queria um grito. De socorro, de agonia, de alegria. De amor.

Como me perco no coração de alguns meninos, perdi-me muitas vezes pelo mar. Ignorante da água, vou buscando uma morte de luz que me consuma. (...)

quinta-feira, novembro 29, 2007

::: Iris :::
Goo Goo Dolls

And I'd give up forever to touch you,
Cause I know that you feel me somehow.
You're the closest to heaven that I'll ever be,
And I don't want to go home right now.

And all I can taste is this moment,
And all I can breathe is your life,
And sooner or later it's over,
I just don't want to miss you tonight.

And I don't want the world to see me,
Cause I don't think that they'd understand.
When everything's made to be broken,
I just want you to know who I am.

And you can't fight the tears that ain't coming,
Or the moment of the truth in your lies.
When everything feels like the movies,
Yeah you bleed just to know you're alive.

domingo, novembro 25, 2007

::: Evite ser traído :::
Arnaldo Jabor


Você deve estar perguntando porque eu gastaria meu precioso tempo falando sobre isso. Entretanto, a aflição masculina diante da traição vem me chamando a atenção já há tempos.

Mas o que seria uma "mulher moderna"? A princípio seria aquela que se ama acima de tudo, que não perde (e nem tem) tempo com / para futilidades, é aquela que trabalha porque acha que o trabalho engrandece, que é independente sentimentalmente dos outros, que é corajosa, companheira, confidente, amante... É aquela que às vezes têm uma crise súbita de ciúmes, mas que não tem vergonha nenhuma em admitir que está errada e de correr pros seus braços... É aquela que consegue ao mesmo tempo ser forte e meiga, desarrumada e linda... Enfim, a mulher moderna é aquela que não tem medo de nada nem de ninguém, olha a vida de frente, fala o que pensa e o que sente, doa a quem doer...

Assim, após um processo "investigatório" junto a essas "mulheres modernas" pude constatar o pior.

** VOCÊ SERÁ (OU É???) "corno", ao menos que:

-Nunca deixe uma "mulher moderna" insegura.
Antigamente elas choravam. Hoje elas simplesmente traem, sem dó nem piedade.

- Não ache que ela tem poderes "adivinhatórios".
Ela tem de saber da sua boca o quanto você gosta dela. Qualquer dúvida neste sentido poderá levar as conseqüências expostas acima.

- Não ache que é normal sair com os amigos (seja pra beber, pra jogar futebol) mais do que duas vezes por semana, três vezes então, é assinar atestado de "chifrudo".
As "mulheres modernas" dificilmente andam implicando com isso, entretanto, elas são categoricamente "cheias de amor pra dar" e precisam da "presença masculina". QUALQUER UMA . Se não for a sua meu amigo...! ! !

-Quando disser que vai ligar, ligue, senão o risco dela ligar pra aquele ex-bom de cama é grandessíssimo.

- Satisfaça-a sexualmente.
Mas não finja satisfazê-la. As "mulheres modernas" têm um pique absurdo em relação ao sexo e, principalmente dos 30 aos 58 anos, elas pensam, e querem fazer sexo TODOS OS DIAS (pasmem, mas a pura verdade)... Bom, nem precisa dizer que se não for com você..! ! ! !

-Lhe dê atenção.
Mas principalmente faça com que ela perceba isso.

- Seja muito carinhoso, sempre.
Garanhões mau (ou bem) intencionados sempre existem, e estes quando querem são peritos em levar uma mulher nas nuvens. Então, leve-a você, afinal, ela é sua ou não é ????

- Nem pense em provocar "ciuminhos" vãos.
Como pude constatar, mulher insegura é uma máquina colocadora de chifres .

- Em hipótese alguma a deixe desconfiar do fato de você estar saindo com outra.
Essa mera suposição da parte delas dá ensejo a um "chifre" tão estrondoso que quando você acordar, meu amigo, já existirá alguém MUITO MAIS "comedor" do que você... só que o prato principal, bem...dessa vez é a SUA mulher.

-Sabe aquele bonitão que você sabe que sairia com a sua mulher a qualquer hora?
Bem... de repente a recíproca também pode ser verdadeira. Basta ela, só por um segundo, achar que você merece... Quando você reparar... já foi.

-Tente estar menos "cansado".
A "mulher moderna" também trabalhou o dia inteiro e, provavelmente, ainda tem fôlego para - como diziam os homens de antigamente "dar uma", para depois, virar de lado e simplesmente dormir.

- Volte a fazer coisas do começo da relação.
Se quando começaram a sair viviam se cruzando em "baladas", "se pegando" em lugares inusitados, trocavam e-mails ou telefonemas picantes, a chance dela gostar disso é muito grande, e a de é sentir falta disso então imensa. A "mulher moderna" não pode sentir falta dessas coisas ... senão...

Bem amigos, aplica-se, finalmente, o tão famoso jargão "Quem não dá assistência, abre espaço para a concorrência e perde a preferência". Deste modo, se você está ao lado de uma mulher de quem realmente gosta e tem plena consciência de que, atualmente o mercado não está pra peixe (falemos de qualidade), pense bem antes de dar alguma dessas "mancadas"..

Proteja-a, ame-a, e principalmente, faça-a saber disso. Ela vai pensar milhões de vezes antes de dar bola pra aquele "bonitão" que vive enchendo-a de olhares... e vai continuar, sem dúvidas, olhando só pra você!!!

sábado, novembro 17, 2007

::: Homem briefing :::
Tati Bernardi

Um dia minha terapeuta falou pra mim: “Você precisa formatar esse homem que você quer. Parar de se perder pelo meio do caminho com gente que não tem nada a ver com você.”

Cheguei em casa e fiz o que os publicitários chamam de briefing. Coloquei em um papel todos os aspectos, formatos, intelectos, medidas, cores, palavras, sentimentos e modos que esse macho deveria ter: 35+, bem-sucedido (mas porque ralou e não porque nasceu rico), moreno, não muito alto, não muito baixinho, forte (mas não malhado), sensível, mas que saiba carregar peso e resolver problemas burocráticos, engraçado, mas sem muitas piadas com pum, que ame a família, mas que queira também constituir uma, que ame as crianças, mas que nem por isso queira ser uma, que ame os cachorros, mas que nem por isso queira ser um, que ame a sua mãe, mas que nem por isso queira que eu seja a mãe dele, que chore vendo TV, desde que não seja o campeonato dublado de pôquer e que ame os amigos, mas que nem por isso dependa deles para ter personalidade.

Que use um anti-sinais, mas �s vezes fique com preguiça do banho (homem sempre limpo e cremoso também não dá), que tenha uma quantidade média de pêlos, despelado não dá, tampouco macaco. Que corte as unhas do pé, mas jamais use base nas unhas da mão, que tenha uma barriguinha de leve para que eu não fique neurótica com a minha bunda molinha, que, quando de frente para o espelho, olhe sua careca e jamais os músculos da sua bunda, que respire de um jeito aceitável quando dorme depois de beber e que jamais, jamais, jamais: vomite.

Que more sozinho, goste de ler (John Fante e Nelson Rodrigues, por favor!), goste de sexo “olho-no-olho” e não só de sexo “canal pago”, goste de viajar, mas nem por isso deixe de aproveitar os cinemas e os restaurantes maravilhosos de São Paulo, que seja um pouquinho “cafa”, mas só comigo e que goste de uma mistura louca entre Truffaut, Fernando Meirelles, Spike Lee, Orson Welles, bossa nova, eletrônico, Jammie Cullum, Franz Ferdinand, Frank Sinatra, Billie Holiday, Cartola, Elvis e… Alcione (adoro “a marrom”, ninguém é perfeito!).

Bom, na verdade o texto tinha umas 18 páginas (só para gosto musical, cinematográfico e literário iam umas boas 10).

Assim que terminei meu briefing de homem perfeito, não deu três dias ele apareceu. Dizem pra gente tomar cuidado com o que deseja, pois é. Trocamos alguns e-mails, telefonemas e, a identificação foi tanta que no dia do nosso primeiro encontro eu quase fui de vestido de noiva.

Ele escolheu o restaurante perfeito, me buscou na hora certa, usou o perfume certo, colocou o CD certo e disse todas as palavras certas, com direito a uma cultura invejável que calou a minha boca e me fez ter vergonha da minha listinha de músicas, filmes e livros.

Durante o jantar me fez rir o tempo todo, pediu o prato certo, o vinho certo, a sobremesa certa e, pra completar sua desenvoltura impecável, pagou tudo.

De volta ao carro ele abriu a porta para mim, me deixou comandar o ar-condicionado, mas não me deixou comandar a discotecagem, afinal, homem precisa ser só meio comandado: totalmente comandado é coisa de fraco e nada comandado é coisa de grosseiro. Perfeito!
Me deixou na porta de casa, desceu do carro comigo, me acompanhou até o elevador. Me deu um beijinho carinhoso, mas não tentou me agarrar, afinal, mistério para o próximo encontro é perfeito.

No dia seguinte, logo pela manhã, me mandou flores.

Sim, finalmente eu havia encontrado o homem briefing, ele existia, ele podia ser meu.

Só continuo solteira porque, infelizmente, nunca mais quis falar com ele. Que cara chato!

sexta-feira, novembro 16, 2007

::: Pra que se vive? :::
Tati Bernardi

Sempre me perguntei pra que se vive, afinal. Quando eu era criança achava que eu vivia porque assim meus pais queriam. Me colocaram no mundo, me deram de comer, me compraram arquinhos de cabelo que combinavam com o vestidinho. Me entucharam de brinquedos e de alertas. O mínimo que eu podia fazer por eles era seguir respirando, acordando, passando fio dental, indo ao banheiro pelo menos depois de comer ameixa.

Depois, quando eu era adolescente, achei que a gente vivia para gostar de alguém. Se tivesse ao menos um garoto bonitinho na escola, valia a pena acordar cedo. Se tivesse ao menos um garoto bonitinho no inglês, valia a pena abrir mão da sonequinha da tarde. Se tivesse ao menos um garoto bonitinho irmão de uma amiga, valia a pena encher o saco da minha mãe para dormir na casa da amiga. Só podia ser isso! Ou se vive pra estudar matemática? Geografia? Comer legumes? Não podia ser. A única coisa que podia ser, era viver pra sentir o coração disparar por qualquer garotinho bonitinho. De preferência um que tivesse sardinhas no rosto ou furinho no queixo.

No final da adolescência, eu comecei a achar que se vivia pra ser alguém. Entrar na faculdade. Arrumar um emprego. Ser alguém. Fiz tudo isso. Entrei na faculdade. Arrumei 456 empregos os quais larguei 456 vezes. E nesse tempo todo fui vários “alguém” e nenhum alguém 456 vezes. Porque ser alguém não tem nada a ver com essa vontade desesperada de ser alguém. E continuei sem saber afinal para o que se vive. Porque a faculdade e o deslumbre com os primeiros dias de trabalho são espaços curtos demais para uma vida inteira. Não se vive exclusivamente pra isso. Não se vive pra pegar trânsito, ter um chefe que tira uma vírgula sua e coloca em outro lugar só pra mostrar que é seu chefe. Não se vive pra bater cartão e pagar self-service com Visa Vale.

Definitivamente não se vive pra isso. E lá ia eu pedir demissão pra tentar descobrir pra que se vive. Será que para salvar as criancinhas, o planeta, os animaizinhos, os aposentados, as árvores, as praias, as formigas? Não, não se vive pra mudar o mundo, o bairro, meu quarto. Porque a gente não muda nem o jeito de escovar os dentes. Essa é a verdade.

Daí achei que vivemos para fazer o que gostamos e ponto final. Como se fosse uma missão para a qual Deus nos enviou. E a minha era escrever, escrever, escrever. Programas de TV, colunas em revistas, novelas, livros, filmes. Tudo. Eu vivia para ter sucesso nisso. E então vim trabalhar em casa e mergulhei nisso da maneira desajeitada de sempre. Mas descobri que comer a Gisele Bundchen numa ilha deserta é o mesmo que punheta. Que graça tem lançar um livro se você não tem amigos pra ligar e falar “porra, cara, vou lançar um livro!”. Nenhuma.

Aí achei então que se vive para as pessoas. Se você tem dez pessoas de quem gosta muito, taí um motivo para se viver. E eu gostava mais ou menos disso: de dez pessoas. E vivia para isso. Para no final do dia tomar um vinho com uma dessas pessoas e brindar o mistério que é não saber pra que se vive. E eu e minhas dez pessoas viveríamos bem até os últimos dias...Mas não é bem assim que funciona, vocês sabem. As pessoas casam, mudam de pais, resolvem ficar chatas, resolvem te achar chata, resolvem não beber mais vinho. Infelizmente não se vive para as pessoas. E quanto mais os anos passam mais você descobre que as mil pessoas maravilhosas viram cem que viram dez que viram duas. E essas duas são insuportáveis, mas são as que sobraram. E você intercala as duas pra não se irritar em dobro.

Ahhh tudo é tão chato, não é mesmo? Foi então que descobri que talvez se viva para dormir. Comprei uma cama gostosa, colchão bom, enchi de almofadas, colei borboletas na parede. Minha casa não tem telefone. Dormir, dormir, dormir. Para nunca mais pensar pra que se vive. E quem disse que dá certo? Eu sonhava toda noite que percorria o mundo atrás da mesma pergunta. E sonhava com velhos sábios, meus coleguinhas do primário, minha professora de yoga, meu 456 ex namorados (definitivamente não se vive para nenhum deles, até porque se você faz isso, eles saem correndo rapidinho), meu avô, um rato morto, um assaltante, a novela das oito, sei lá. Eu percorria o mundo atrás da resposta. E acordava cansada e com mais sono. Esse negocio de dormir não resolve o problema de ninguém.

Aí um dia, depois de uma dessas noites de correr o cérebro, acordei com uma idéia fixa: nascemos pra gerar vida! Sim, eu precisava ser mãe. E fiquei obcecada pela idéia. Eu, um ser com a conta vermelha, sem papel higiênico e sem namorado, louca pra ser mãe. Mas não foi isso que minha mãe fez comigo? Achou que a razão da sua vida era ser mãe...bom, ela não é das pessoas mais felizes do mundo e eu não sou das pessoas mais bem resolvidas do mundo por ser o centro da vida dela. Não, não se vive para ser mãe. É lindo ser mãe, mas não pode ser a única coisa da vida de um ser.

E segui procurando. Talvez a gente viva pra conhecer o mundo, pra andar numa motoquinha em Paris, pra ouvir todas as músicas lindas, pra ler todos os livros bons, pra fazer sexo com amor, pra sair dando pra meio mundo, pra pagar os pecados, pra dançar, pra quebrar o pau com todo mundo, pra ser superficial ou leve e adorar todo mundo como se fosse possível viver em paz aceitando todos e sendo aceita. Pra malhar a bunda, pra chorar num concerto no Teatro Municipal, pra comer um doce, pra ver o Wagner Moura com aquela cara de macho, pra assistir “Love in the Afternoon” do Billy Wilder, pra levar a Lolita no dentista de cachorros, pra olhar ele pela última vez que nunca é a última vez e chorar pela última vez que nunca é a última vez. Tudo isso? Nada disso? E segui procurando.

Então pra que? Pra quem? Por que? Por que acordo todos os dias? Se eu sinto prazer em escrever é para que alguém leia. Alguém que certamente vai me magoar um dia. E vai embora. Se eu ganho dinheiro é para comprar coisas que um dia vão acabar. Se eu rezo é para ter uma paz que daqui a pouco vai embora. Tudo vai embora. Todos vão embora. Se tudo acaba, então, meu Deus, pra que se vive? Pra que?

E nessa de tanto perguntar, não é que descobri! Eu acho, de verdade, do fundo da minha alma, que se vive única e exclusivamente para se viver.

quarta-feira, outubro 17, 2007

::: Imagem :::
Ana Paula Mangeon

Costumo confundir a impressão com a essência
A possibilidade com a certeza.
A teoria com a prática.
A notícia com o fato.

Confundo o que é com o que invento.
Até que me lembro
Que parecido não significa igual.
E que o semelhante nunca será aquilo a que se assemelha.

Aquilo no espelho, é só uma imagem.

domingo, outubro 07, 2007

::: Fugazes :::
Ana Paula Mangeon

Era um menino lindo,
e sabia conversar,
e se entregava ao beijar .

E era sábado
e já tinhamos bebido demais

E me deu todos seus telefones
e eu idem
E não vou ligar
e nem ele.
::: Vivo ou morto. Meu reino por um homem interessante. :::
Tati Bernardi

Não sei mais o que fazer das minhas noites durante a semana. Em relação aos finais de semana já desisti faz tempo: noites povoadas por pessoas com metade da minha idade e do meu bom senso. Nada contra adolescentes, muitos deles até são mais interessantes e vividos do que eu, mas to falando dos “fabricação em série”. Tô fora de dançar os hits das rádios e ter meu braço ou cabelo puxado por um garoto que fala tipo assim, gata, iradíssimo, tia. Tinha me decidido a banir a palavra “balada” da minha vida e só sair de casa para jantar, ir ao cinema ou talvez um ou outro barzinho cult desses que tem aberto aos montes em bequinhos charmosos. Mas a verdade é que por mais que eu ame minhas amigas, a boa música e um bom filme, meus hormônios começaram a sentir falta de uma boa barba pra se esfregar.

Já tentei paquerar em cafés e livrarias, não deu muito certo, as pessoas olham sempre pra mim com aquela cara de “tô no meu mundo, fique no seu”. Tentei aquelas festinhas que amigos fazem e que sempre te animam a pensar “se são meus amigos, logo, devem ter amigos interessantes”. Infelizmente essas festinhas são cheias de casais e um ou outro esquisito desesperado pra achar alguém só porque os amigos estão todos acompanhados. To fora de gente desesperada, ainda que eu seja quase uma.

Baladas playbas com garotas prontas para um casamento e rapazes que exibem a chave do Audi to mais do que fora, baladas playbas com garotas praianas hippye-chique que falam com voz entre o fresco e o nasalado (elas misturam o desejo de serem meigas com o desejo de serem manos com o desejo de serem patos) e rapazes garoto propaganda Adidas com cabelinho playmobil também to fora.

O que sobra então? Barzinhos de MPB? Nem pensar. Até gosto da música, mas rapazes que fogem do trânsito para bares abarrotados, bebem discutindo a melhor bunda da firma e depois choram “tristeza não tem fim, felicidade sim” no ombro do amigo, têm grandes chances de ser aquele tipo que se acha super descolado só porque tirou a gravata e que fala tudo metade em inglês ao estilo “quero te levar pra casa, how does it sounds?”

Foi então que descobri os muquifos eletrônicos alternativos, para dançar são uma maravilha, mas ainda que eu não seja preconceituosa com esse tipo, não estou a fim de beijar bissexuais sebosos, drogados e com brinco pelo corpo todo. To procurando o pai dos meus filhos, não uma transa bizarra. Minha mais recente descoberta foram as baladinhas também alternativas de rock. Gente mais velha, mais bacana, roupas bacanas, jeito de falar bacana, estilo bacana, papo bacana… gente tão bacana que se basta e não acha ninguém bacana. Na praia quem é interessante além de se isolar acorda cedo, aí fica aquela sensação (verdadeira) de que só os idiotas vão à praia e às baladinhas praianas. Orkut, MSN, chats… me pergunto onde foi parar a única coisa que realmente importa e é de verdade nessa vida: a tal da química. Mas então onde Meu Deus? Onde vou encontrar gente interessante? O tempo está passando, meus ex já estão quase todos casados, minhas amigas já estão quase todas pensando no nome do bebê,… e eu? Até quando vou continuar achando todo mundo idiota demais pra mim e me sentindo a mais idiota de todos? Foi então que eu descobri. Ele está exatamente no mesmo lugar que eu agora, pensando as mesmas coisas, com preguiça de ir nos mesmos lugares furados e ver gente boba, com a mesma dúvida entre arriscar mais uma vez e voltar pra casa vazio ou continuar embaixo do edredon lendo mais algumas páginas do seu mundo perfeito.

A verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. Não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?

quarta-feira, outubro 03, 2007

::: Way out :::
Ana Paula Mangeon

O problema de se estar quase sempre muito sozinha não é que falte alguém. O desconforto procede desse excesso de mim, de ter tempo e espaço para mergulhar em quem eu sou e me descobrir. Assusto-me com minhas nuances. E quanto mais eu me sei mais impossível de lidar eu me considero. Conhecer-me tão bem é um peso, um peso que não chega a ser uma dor mas incomoda discretamente. Eu não tenho desculpas para nada. O que digo é o que quero dizer. O que sinto é integralmente o que sinto. E eu digo muitas coisas e sinto tudo muito intensamente. E não penso antes de dizer nem me preocupo antes (nem depois) de sentir.

Apaixonava-me então, de tempo em tempo, ou me mantinha apaixonada. Assim girava o foco para fora de mim e me desentendia um pouco. Apaixonar-me dava a oportunidade de me surpreender comigo. E de romance em romance – todos imaginários – fui descobrindo meus limites, minhas canduras, minhas amarguras. Os limites do quanto eu podia me entregar, do quanto não. Até que aconteceu.

De ter o “viver um grande amor” tão minuciosamente planejado, de saber-me ação e reação e pôr-me a esperá-lo, racionalizei também a paixão. E a paixão virou uma outra coisa, inominável, porque não há jeito de sentimento ser sentido quando permeado de razão.

E quando o telefone não toca, eu já não me preocupo. Faço um café com leite. Abro um livro. E quando a saudade aperta, um escrevo uma bobagem e dou um sorriso.

Eu já conheço minha alma bem demais. Demais.

Preciso de pronomes que não sejam eu.
Emergir, enfim, de minh’alma. Romper o casulo.
Preciso de Você. Do outro.
Cuidar de. Não me.
Quero Tu. Te.
Quiçá Nós.
Seja lá Nós, quem formos.

Preciso me desconhecer completamente.
::: Bom dia :::
Ana Paula Mangeon

Acordar como quem ressuscita
sonhos bons, vertigens como cócegas.
Acordar como quem volta de um lugar
onde tempo e espaço não importam
pois não há números,
nem é preciso fazer contas...
::: Exigência :::
Ana Paula Mangeon

Chame com qualquer nome,
rosa, coisa, amiga, esposa.
Eu não preciso de batismo.
Se sonegue, se divida
me coloque ora sim, ora não na sua vida.
Diga que estamos juntos
faça que a gente não existe.
Nomes, rótulos, planos? Para quê?
Basta não me deixar ficar triste.

quarta-feira, setembro 26, 2007

::: Delivery :::
Tati Bernardi

Quando paramos em frente ao flat, lembro que ainda perguntei mais uma vez se era isso mesmo o que ela queria. Ela apenas me olhou e sorriu triste. Como quando a pessoa está cansada de saber da dor do dia seguinte mas insiste em congelar um dia. E saiu do carro com delicadeza e uma esperança infantil de eternizar segundos.

Olhei ela entrando, de longe. Aquilo foi terrível. Queria sair gritando e agarrá-la pelo pescoço. E dizer mais uma vez que ela não precisava disso. E que uma hora tudo iria ser tão lindo e saudável e preenchedor. Mas a deixei ir, como uma mãe que sabe que o filho vai sofrer mas acha inevitável abrir as pernas para libertá-lo.

Três coisas facilitaram que ela achasse a vida muito divertida: o óculos escuro vagabundo que ela ganhou no casamento, as havaianas pra quando o pé cansasse e o fato de que a noite ia começar quando o dia já estava para nascer.

No elevador ela se achou absolutamente linda. Coisa que só achava nessas situações em que ninguém poderia saber o que ela estava fazendo. Ela se transformava em personagem para enganar a vida chata e todas as suas imperfeições. Tive dó quando vi a alegria que ela sentiu ao ver aquele corredor com dezenas de números. Era como uma gincana inocente onde só uma porta tinha o bilhete premiado e ela era a única que sabia o número.

Depois esperei, do lado de fora. Tudo virar frio. Ela se cansar do frio. Ela procurar o controle remoto do ar condicionado e não encontrar e morrer de frio. E querer um pedaço da coberta mas não ter mais permissão para querer. E querer um abraço mas não ser mais permitido ganhar isso. E querer pedir ajuda em relação ao frio mas não ser mais permitido pedir ajuda. E querer ser vista mas não ser mais permitido existir.

Esperei ela finalmente cansar do frio e se levantar sem fazer barulho. E enfrentar o dia seguinte, com tudo o que ele tem de real. A realidade cheia de pontas cortantes. A realidade que transforma uma mulher cheia de sonhos e carinhos e algumas boas frases em mais uma pizza que esfriou. Um delivery vencido.

E esperei sofrendo o momento em que ela se olharia no espelho e diria com os olhos borrados que sua ficha caiu. E esperei ela resgatar pelos cantos não íntimos, em silêncio e sem cúmplice, tudo o que era seu com medo de deixar algum rastro ou parecer boba.

Esperei sentadinha do lado de fora, com o coração na mão. Com medo dela fazer alguma besteira como beija-lo quatorze vezes mesmo ele sendo mais um desses caras que não vão sequer até a porta pra se despedir ou ligam para saber se o táxi chegou direito.

Ainda assim, ela é uma dessas garotas que beijam mais um desses caras quatorze vezes. Porque um desses caras, que dá vontade de beijar quatorze vezes, aparece a cada quatorze caras. E ela se despediu de uma felicidade e uma gentileza que existiram apenas na sua emoção. O que já era algo nessa vida chata cheia de gente chata. Alguém que despertava a sua emoção.

E ela finalmente saiu. Ela e seu sorriso triste novamente. Agora um pouco mais triste mas ainda assim iluminado. Ela e sua vontade de tomar banho quente e comer pão de queijo e voltar a ser apenas uma menina que sonha com alguém para se fazer isso junto, pela manhã. Com a maquiagem borrada e o vestido de ontem. E medo de ser confundida com puta na recepção do flat. E com medo dela própria, mais tarde, se confundir com puta.

Ela e seus óculos de brinquedo para esconder de brinquedo uma emoção de brinquedo. Usando sua havaianas para uma alma cansada. Achando graça que o dia terminava justamente porque começava de novo.

No Ibirapuera as pessoas corriam numa maratona. Cheias de certeza. Ela olhou tudo aquilo com um sono profundo. Enquanto alguns corriam, ela só queria parar. Parar em algum braço, em algum abraço. Parar finalmente. E tomar o banho quente e comer pão de queijo. E ter abraços permitidos para sempre. E poder reclamar do frio para sempre. Ela só queria se sentir quente, ainda que fosse de despedida.

Ela sabia que era amor de um dia e tinha topado, mas não aceitava que o amor de um dia tivesse acabado sem amor. Foi então que eu perguntei de novo, se era isso mesmo o que ela queria. E ela respondeu que não, não era. Mas na vida só existia uma coisa mais forte do que querer: a própria vida. Ela adormeceu no táxi, cansada o suficiente pra não se sentir suja e boba o suficiente pra engolir a saliva feliz, como se ainda pudesse reviver algo que havia morrido tão rápido.

Achei aquilo lindo, achei que aquilo era a vida. E acabei dando finalmente o abraço eterno que ela tanto queria e que eu tanto queria. Ainda que se perdoar não melhore a solidão de ninguém.
::: Hey There Delilah :::
Plain White T's


Hey there Delilah
What's it like in New York City?
I'm a thousand miles away
But girl tonight you look so pretty
Yes you do
Times Square can't shine as bright as you
I swear it's true

Hey there Delilah
Don't you worry about the distance
I'm right there if you get lonely
Give this song another listen
Close your eyesListen to my voice it's my disguise
I'm by your side

Oh it's what you do to me
Oh it's what you do to me
Oh it's what you do to me
Oh it's what you do to me
What you do to me

Hey there Delilah
I know times are getting hard
But just believe me girl
Someday I'll pay the bills with this guitar
We'll have it good
We'll have the life we knew we would
My word is good

Hey there Delilah
I've got so much left to say
If every simple song I wrote to you
Would take your breath away
I'd write it all
Even more in love with me you'd fall
We'd have it all

Oh it's what you do to me
Oh it's what you do to me
Oh it's what you do to me
Oh it's what you do to me

A thousand miles seems pretty far
But they've got planes and trains and cars
I'd walk to you if I had no other way
Our friends would all make fun of us
and we'll just laugh along because we know
That none of them have felt this way
Delilah I can promise you
That by the time we get through
The world will never ever be the same
And you're to blame

Hey there Delilah
You be good and don't you miss me
Two more years and you'll be done with school
And I'll be making history like I do
You'll know it's all because of you
We can do whatever we want to
Hey there Delilah here's to you
This one's for you

Oh it's what you do to me
Oh it's what you do to me
Oh it's what you do to me
Oh it's what you do to me
What you do to me.

domingo, setembro 02, 2007

::: Say OK :::
Vanessa Hudgens

You are fine
You are sweet
But I'm still a bit naive with my heart
When you're close
I don't breathe
I can't find the words to speak
I feel sparks
But I don't wanna be into you
If you are not looking for true love, oh oh
No I don't wanna start seeing you
If I can't be your only one
So tell me when it's not alright

When it's not ok
Will you try to make me feel better?
Will you say alright? (say alright)
Will you say ok? (Say ok)
Will you stick with me through whatever?
Or run away (Say that it's gonna be alright. That it's gonna be ok)
Say Ok.

When you call I don't know if I should pick up the phone every time
I'm not like all my friends who keep calling up the boys, I'm so shy
But I don't wanna be into you
If you don't treat me the right way
See I can only start seeing you
If you can make my heart feel safe (feel safe)

When it's not alright When it's not ok
Will you try to make me feel better?
Will you say alright? (say alright)
Will you say ok? (Say ok)
Will you stick with me through whatever?
Or run away (Say that it's gonna be alright. That it's gonna be ok Don't run away, don't run away)

Let me know if it's gonna be you
Boy, you've got some things to prove
Let me know that you'll keep me safe
I don't want you to run away so
Let me know that you'll call on time
Let me know that you won't be shy
Will you wipe my tears away
Will you hold me closer

When it's not alright
When it's not ok
Will you try to make me feel better
Will you say alright? (say alright)
Will you say ok? (Say ok)
Will you stick with me through whatever?
Or run away (Say that it's gonna be alright. That it's gonna be ok)
Say OK (Don't run away, don't run away)
(Say that it's gonna be alright. That it's gonna be ok, don't run away)
Will you say OK (Say that it's gonna be alright. That it's gonna be ok)