sábado, janeiro 12, 2008

::: Fadinha de cu é rola ou como ser muito preconceituosa :::
Tati Bernardi

Eu tive um namorado que insistia nas roupas da Les Filós. Ele me dava blusinhas cheias de babados com brilhos e um dia me fez experimentar um sapato altíssimo, rosa e com laços. Eu andei dois metros e teria morrido se a vendedora não tivesse corrido para me segurar na escada.

Eu passei quase um ano sem sentir prazer com ele porque boneca de cera não goza. Transar é que nem comer manga, se você corta em 24 quadradinhos perfeitos e come educadamente de garfo, já deu tempo dela secar. Bom é fiapo no dente e queixo babado.

Eu tive outro namorado que só me deixava usar calcinhas de renda branca porque as de renda preta eram vulgares… e as temáticas escritas "me foda agora ou cale-se para sempre" eram dignas da fogueira da inquisição.

Era um chato, um belo dia eu dei um pé nele e fui ao cinema sozinha e sem calcinha. O máximo da liberdade.

Sempre que eu fiz pose num pufe colorido de uma balada "lounge" ou cara blasé encostadinha no bar, choveu idiotas. Sempre que eu me acabei que nem uma retardada na pista de dança e suei e borrei a maquiagem, eu afastei os playbas idiotas. Graças a Deus. Odeio os playbas e suas namoradinhas fadinhas que acham o Woody Allen um tio até legal quando querem parecer cultas em alguma festa do dj gringo do momento.

Ahhhhhh como é difícil pertencer a alguma coisa. Eu adoro praia, mas qual a exata quantidade de neurônios da galerinha Maresias-surf-Sirena? Eu adoro happy hour, mas qual a chance de eu agüentar o 6:01 com aquela galera "firma" combinando o sapato de couro falso com a bolsa de couro falso acompanhada de um mister MBA que não dá no couro?

A galera que se esconde em bares sujos e usa piercing, definitivamente pessoas freaks e que não passam a certeza de um banho recente, não é a minha. Muito menos a galera black music que faz fila de semelhantes em série em novíssimas casas noturnas na Vila Olímpia (a casa já reabriu 150 vezes com nomes diferentes e donos filhinhos de papais diferentes) e distribuem "flyers" com desconto. A palavra "flyer" me dá vontade de encarnar um americano fanático por joguinhos eletrônicos e sair metralhando todo mundo.

Sei lá, nada contra tá? De repente você gosta de mim e se encaixa num desses perfis… não fica com raiva de mim não, eu sofro sendo assim, eu sofro porque, quando você acha mais da metade do mundo babaca, você passa muito tempo sozinho.

E a galera de "ripongazinhas" que compram na Benedito Calixto e freqüentam os bares de MPB da Vila Madalena? Não, eu gosto muito do Chico e tudo mais, mas aqueles tios de jaqueta de couro com um banquinho, um violão, uma pasta com plásticos e uma platéia entoando "Me levaaaa amor. Amooooooooooooor. Por onde for, quero ser seu paaaaaar" é a morte para mim.

Acho a galera das "balas" muito idiota. O que exatamente é uma pessoa que espera "bater" para começar a se divertir? E pergunta pro cara do lado "e aí? bateu?" e o cara do lado responde "tá batendo, tá batendooooo!". Que porra é essa? Um concurso de punheta? Gente! Por que vocês insistem em parecer idiotas?

Acho rave um saco porque dura demais, não gosto de nada que dura demais num mesmo ritmo, chega uma hora que você implora pra alguém desligar o liqüidificador do seu cérebro. Talvez meu problema seja não beber e nem usar nenhum outro tipo de droga, é o tempo todo a realidade do mundo fazendo clarão na minha mente preconceituosa, as coisas me cansam demais, ter sempre o controle me cansa demais. Mas ficar com cara de idiota e fazer fila pra vomitar não é a minha não. Sei lá, sou careta.

Mas odeio os caretas que acordam cedo e se comportam sempre equilibrados na valsa do mundo corporativo, odeio a comunidade "namorada perfeita" ou coisa semelhante que me contaram que tem no Orkut. Meninas alisadas, de mãos feitas, de sobrancelhas limpas, cheias de posturas, beicinhos e educações. Meninas meigas, que jamais falam "ai o meu caralho, ai a minha buceta cabeludaaa!" mas tratam garçons mal e adoram olhar bundas de homens: bem ali aonde fica a carteira.

Adoro um palavrão, adoro a palavra cu (e acho o cúmulo ela não ter acento). Ela bem usada é uma excelente economia de terapia.

Nunca fui da turma dos nerds, eu estudava pra fazer média 5 e acabar logo com aquele tormento dos grupinhos bacanudos na hora do recreio. Um monte de idiotas fãs do Brendon Walsh. Eu odiava aquele seriado e os topetes de gel. Eu me agarrava com o fotógrafo de 35 anos da escola enquanto aquelas idiotas cheiravam a Giovana Baby.

Tinha a Fabíola, a Dani e a Melissa. Elas falavam pra mim "você até podia ser bonitinha se não fosse estranha". E hoje em dia eu digo a elas "vocês até poderiam ser interessantes se não fossem normais".

O mundo inteiro é mais um em meio a tantos, e eu prefiro ser única no meio do nada.

Na faculdade tinha o grupo das meninas que trabalhavam na Daslu e não tiveram capacidade para entrar na FAAP porque matavam aula do cursinho para fazer unha francesinha. Tinha o grupo que nem pensava em largar a maconha para começar a trabalhar mas comprava camiseta do Che Guevara com o dinheiro do pai gerente de banco. Em todos os lugares que eu trabalhei sempre identifiquei o grupo das meninas caçadoras de homens ricos que trabalham só até descolar um gerente, chefe ou assistente promissor.

Tem as meninas atrasadas mentalmente que com 20 anos nas costas colecionam adesivos de ursinhos, tem as cachorronas em suas calças brancas agarradas atrás de uma banda de axé, pagode ou qualquer merda do gênero e tem também a pior espécie do mundo: a jornalista andrógina superdescolada que de tanto ser contra o machismo acaba virando assexuada. A mulher que não precisa de pinto vira a típica "isso é falta de pinto".

Eu uso All Star vermelho sujo com calça dobrada e tenho uma bolsa Adidas, sim eu sou daquelas publicitárias que combinam almoços, falam da vida dos outros publicitários, namoram publicitários e gostam do Ritz, do Jacaré, do Drosóphila e do Espírito Santo.

Eu sou daquelas publicitárias que só vão a lugares com publicitários e reclamam que só tem publicitários.

Eu sou mais uma escrota escondida numa tribo qualquer para essa vida parecer menos idiota, só que todos os dias a idiotice da vida me dá um tapa na cara e eu corro para ler um livro do Nick Hornby, ver um filme do Woody Allen e ouvir jazz fusion. E aí me sinto mais "publicitária" ainda, é um inferno.

Eu apenas sou inteira e exclusiva quando estou aqui, no escuro do meu quarto escrevendo essas bobagens neste site. Sem ninguém por perto, tirando meleca do nariz, admirando minha foto gorducha com 5 anos de idade. Eu sou inteira aqui, aqui eu não tenho medo de nada, não me acho menos do que ninguém e não tenho medo de ser sozinha.

Eu encontrei minha exclusividade por trás da minha falsa aparência e isso me faz lembrar todos os dias que ralar esses dedos até sangrar é muito melhor do que malhar a bunda numa esteira de academia e pertencer à tribo das meninas que nem precisam abrir a boca para chamar a atenção. E aliás, é bem melhor que elas não abram.

Um comentário:

talissa valentina ribeiro disse...

Nossa Tati Bernardi unica como sempre.
Texto muito bom mesmo, PERFEITO.

Beijos até...