quinta-feira, julho 10, 2008

::: O Dia Seguinte. Dele. :::
Tati Bernardi

Ele acorda e cantarola a música no banho. Over and over and over. Ela está obcecada pelo Hot Chip e passou a doença a diante.
Ele cantarola e lembra que foi nessa música que ela achou que a cadeira giratória do computador podia contribuir com a dança. Ri. Sente tesão. Acha o mundo ridículo e feliz. Lembra que tava boa a vida procurando. Encontrar dá medo, preguiça e uma sensação estranha de estar se perdendo. Será que eu vou querer namorar essa louca? Será que essa louca vai querer namorar comigo?
Aí ele lembra. Caraca! É mesmo! A menina escreve. Sem pudor. Falaram pra ele. A essa altura do campeonato, já deve ter um texto publicado falando da noite anterior. Será que ela achou bom? Será que ela vai publicar o tamanho da minha alma? Da minha tatuagem? Do meu pé?
Ele corre com o banho. Ainda cantarola, mas agora é com um pouco de medo. Precisa entrar logo naquele site desgraçado. Todo cheio de desenhinhos inacabados e leves. Mas é ali mesmo que ela acaba com todo mundo e sem nenhuma leveza.
Corre com seu carro que ainda tem o cheiro dela e uns fios de cabelo, agora castanhos escuros, pendurados no assento do passageiro. Foi bom. A noite foi boa. Ela não vai falar mal de mim. E também não vai falar nada de mim. Nem bem. Como ele quer que ela seja misteriosa e suma durante todo o dia de hoje. Ele quer sentir o frio na barriga, o nervoso pra saber se ela vai atender ou não. Não seja fácil, minha filha. Não escreve que gostou. Deixa eu sofrer um pouco. Deixa.
Ele chega na agência e não vai direto pro café. Espera ninguém estar passando atrás dele e digita o site dela. Sua frio, melhor pegar o café. Não, vai de uma vez. Vai. Abre. E de repente. Lá está. Um texto. Um texto pra ele. Caramba, ela já escreveu? É o primeiro texto que alguém escreve pra ele, tirando uma tontinha da época da faculdade que botava frases do tipo “eu sei que quando tiver de ser, será” nas cartinhas que ele nem lembra mais onde foram parar. Coitada. Agora é uma escritora de verdade. Ele ri, porque a escritora de verdade se acha um pouco dizendo que é de verdade.
Ele gosta dela. Não tem mais como fugir. É, da medo. Ela deve estar com medo também. Gostar é começar o inferno tudo de novo. Mas ela, quem diria, escreve lá no texto que topa. Topa começar tudo de novo. E faltando dois parágrafos pra terminar o texto, ela manda, na lata mesmo: “quero te ver hoje”. O que será que ele vai responder?
Ele então pega o café. E sai cantando como se o dia estivesse diferente. Over and over and over and over...

quarta-feira, julho 09, 2008

::: Das coisas que a gente sempre sabe :::
Ana Paula Mangeon

A gente sabe, a gente sempre sabe
quando a coisa está bem ou está mal.
Quando o olho perde o brilho, quando o sorriso ilumina.
A gente sempre sabe quando a mão quer ou não a mão,
quando a presença é ou não mais é imprescindível.
A gente sempre sabe o limite da paixão,
onde transmuta em carinho,
quando vira só admiração
e quando já estava mesmo tudo perdido.

A gente sabe, a gente sempre sabe.

A gente sempre sabe a hora de avançar e a hora de recuar.
A gente sempre sabe reconhecer subterfúgios e estratagemas.
A gente sempre sabe o pulo do gato e a rota de fuga.
A gente sempre sabe o início, o meio e o fim.

A gente sabe, a gente sempre sabe.

E a gente sempre sabe que às vezes a gente corta,
tenta arrancar, lava com álcool e removedor,
mas a coisa fica ainda ali, incubada, latente,
aguardando uma distração para se manifestar.

São velhas conhecidas as mentiras que a gente inventa.

A gente sabe, a gente sempre sabe quando a fonte seca
e quando ainda há água para nossa sede eterna.

segunda-feira, julho 07, 2008

::: O Tempo Não Pára :::
Cazuza

Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

domingo, julho 06, 2008

::: Despedida :::
(trecho do filme Outono em NY)


Will: "- O tempo não pode arrancar do pássaro a sua asa.
Pássaro e asa, juntos são inseparáveis.
nada que voa...
nem a cotovia, nem você...
podem morrer como os outros morrem."

Charlotte: - O que foi que eu fiz com você?

Will: - Matou-me para as outras mulheres.

Charlotte: - Não, eu melhorei você para elas...

quinta-feira, julho 03, 2008

::: As Razões Que o Amor Desconhece :::
Martha Medeiros

Você ama aquela petulante.
Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu,
você deu flores que ela deixou a seco,
você levou para conhecer a sua mãe e ela foi de blusa transparente.
Você gosta de rock e ela de chorinho,
você gosta de praia e ela tem alergia a sol,
você abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo,
nem no ódio vocês combinam.
Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado,
o beijo dela é mais viciante do que LSD,
você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome...

Você ama aquele cafajeste.
Ele diz que vai ligar e não liga,
ele veste o primeiro trapo que encontra no armário,
ele escuta Sivuca.
Ele não emplaca uma semana nos empregos,
está sempre duro, e é meio galinha.
Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado,
e ainda assim você não consegue despachá-lo.
Quando a mão dele toca na sua nuca,você derrete feito manteiga.
Por que você ama este cara ?

Não pergunte pra mim.
Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais.
Gosta dos filmes de Woody Allen, dos irmãos Cohen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É bonita.
Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar.
Independente, emprego fixo, bom saldo no banco.
Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettuccine ao pesto é imbatível.
Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo.

Com um currículo desses, criatura,
por que diabo está sem um amor ?
Ah, o amor, essa raposa !...
Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática:
eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim.
Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem.
Caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta.
O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão.
O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.
Costuma ser despertado mais pelas flechas do cupido que por uma ficha limpa.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano.
Isso são só referências.
Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.
Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC.

Ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível.
Honestos existem aos milhares,generosos tem às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó...
Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é...

domingo, junho 29, 2008

::: A canção tocou na hora errada :::
Ana Carolina

A canção tocou na hora errada
E eu que pensei que eu sabia tudo
Mas se é você eu não sei nada
Quando ouvi a canção,
era madrugada
Eu vi você, até sentir tua mão
E achei até que me caia bem como uma luva
Mas veio a chuva e ficou tudo tão desigual

A canção tocou no rádio agora
Mas você não pôde ouvir por causa do temporal
Mas guardei tuas cartas com letras de fôrma
Mas já não sei de que forma mesmo você foi embora

A canção tocou na hora errada
Mas não tem nada não,
Eu até lembrei
Das rosas que dão no inverno

sexta-feira, junho 27, 2008

(que saudade de berraaaaaaar essa música nos shows dos meus amigos - a minha música, segundo o Renatinho... rsrsrs)

::: Que Diferença Faz :::
Detonautas

Se eu não vou te ver aqui
Que diferença faz?
Se era só se divertir
Que diferença faz?

Deixa pra trás
Se não for legal em outro lugar
Deixa pra depois
Se não for nós dois tanto faz

Eu sabia que nunca mais te encontraria depois daquele dia
Tentei de todas as formas te provar, e te provar de todas as formas
Então pensei numa maneira manera de te mostrar
Que te queria só naquele dia e nunca mais
Se eu não vou te ver aqui, que diferença faz?

quarta-feira, junho 25, 2008

::: Oração das Mulheres Resolvidas :::
(Autor?)

Que o mar vire cerveja e os homens, tira-gosto...
Que os nossos homens nunca morram viúvos,
e que nosso filhos tenham pais ricos e mães gostosas!

Que Deus abençoe os homens bonitos, e os feios se tiver tempo;
Aos que temos, aos que tivemos e aos que teremos.
Um brinde também aos namorados que nos conquistaram , aos TROUXAS que nos perderam e os SORTUDOS QUE AINDA VÃO NOS CONHCER !!!

Que SEMPRE sobre , que NUNCA nos falte , e que a gente DÊ CONTA de todos !!!
Amém.

segunda-feira, junho 23, 2008

::: Immortal Beloved :::
Ludwig van Beethoven

The First Letter
July 6, in the morning
My angel, my all, my very self - Only a few words today and at that with pencil (with yours) - Not till tomorrow will my lodgings be definitely determined upon - what a useless waste of time - Why this deep sorrow when necessity speaks - can our love endure except through sacrifices, through not demanding everything from one another; can you change the fact that you are not wholly mine, I not wholly thine - Oh God, look out into the beauties of nature and comfort your heart with that which must be - Love demands everything and that very justly - thus it is to me with you, and to your with me. But you forget so easily that I must live for me and for you; if we were wholly united you would feel the pain of it as little as I - My journey was a fearful one; I did not reach here until 4 o'clock yesterday morning. Lacking horses the post-coach chose another route, but what an awful one; at the stage before the last I was warned not to travel at night; I was made fearful of a forest, but that only made me the more eager - and I was wrong. The coach must needs break down on the wretched road, a bottomless mud road. Without such postilions as I had with me I should have remained stuck in the road. Esterhazy, traveling the usual road here, had the same fate with eight horses that I had with four - Yet I got some pleasure out of it, as I always do when I successfully overcome difficulties - Now a quick change to things internal from things external. We shall surely see each other soon; moreover, today I cannot share with you the thoughts I have had during these last few days touching my own life - If our hearts were always close together, I would have none of these. My heart is full of so many things to say to you - ah - there are moments when I feel that speech amounts to nothing at all - Cheer up - remain my true, my only treasure, my all as I am yours. The gods must send us the rest, what for us must and shall be -
Your faithful LUDWIG.

The Second Letter
Evening, Monday, July 6
You are suffering, my dearest creature - only now have I learned that letters must be posted very early in the morning on Mondays to Thursdays - the only days on which the mail-coach goes from here to K. - You are suffering - Ah, wherever I am, there you are also - I will arrange it with you and me that I can live with you. What a life!!! thus!!! without you - pursued by the goodness of mankind hither and thither - which I as little want to deserve as I deserve it - Humility of man towards man - it pains me - and when I consider myself in relation to the universe, what am I and what is He - whom we call the greatest - and yet - herein lies the divine in man - I weep when I reflect that you will probably not receive the first report from me until Saturday - Much as you love me - I love you more - But do not ever conceal yourself from me - good night - As I am taking the baths I must go to bed - Oh God - so near! so far! Is not our love truly a heavenly structure, and also as firm as the vault of heaven?

The Third Letter
Good morning, on July 7
Though still in bed, my thoughts go out to you, my Immortal Beloved, now and then joyfully, then sadly, waiting to learn whether or not fate will hear us - I can live only wholly with you or not at all - Yes, I am resolved to wander so long away from you until I can fly to your arms and say that I am really at home with you, and can send my soul enwrapped in you into the land of spirits - Yes, unhappily it must be so - You will be the more contained since you know my fidelity to you. No one else can ever possess my heart - never - never - Oh God, why must one be parted from one whom one so loves. And yet my life in V is now a wretched life - Your love makes me at once the happiest and the unhappiest of men - At my age I need a steady, quiet life - can that be so in our connection? My angel, I have just been told that the mailcoach goes every day - therefore I must close at once so that you may receive the letter at once - Be calm, only by a calm consideration of our existence can we achieve our purpose to live together - Be calm - love me - today - yesterday - what tearful longings for you - you - you - my life - my all - farewell. Oh continue to love me - never misjudge the most faithful heart of your beloved.
ever thine
ever mine
ever ours

sábado, junho 21, 2008

::: Resposta :::
Skank

Bem mais que o tempo
Que nós perdemos
Ficou prá trás
Também o que nos juntou...

Ainda lembro
Que eu estava lendo
Só prá saber
O que você achou
Dos versos que eu fiz
E ainda espero
Resposta...

Desfaz o vento
O que há por dentro
Desse lugar
Que ninguém mais pisou...

Você está vendo
O que está acontecendo
Nesse caderno
Sei que ainda estão...

Os versos seus
Tão meus que peço
Nos versos meus
Tão seus que esperem
Que os aceite...

Em paz eu digo que eu sou
O antigo do que vai adiante
Sem mais eu fico onde estou
Prefiro continuar distante...

quarta-feira, junho 18, 2008

::: Humor Carioca :::
Lula Vieira

Encontrei em São Paulo a Paula Lagrotta e trocamos piadas novas, fizemos o maior esporro. A gente estava esperando a Ciça e a Polika para voltarmos todos para o Rio, depois de uma profícua jornada de trabalho em São Paulo. Entre várias fofocas e maledicências comentamos que tanto ela quanto eu falávamos besteiras demais, estávamos muito pornográficos, que a gente precisava maneirar, pois essa imagem de boca suja poderia nos prejudicar. Tudo pura hipocrisia, pois já não tenho mais como piorar a minha imagem e a Paula é uma das melhores profissionais do mercado, disputada por qualquer agência que queira ter um atendimento de primeira qualidade.

Pois bem, daí chegou a nossa vez de sermos atendidos. Vocês conhecem o sistema: um se adianta, fica no balcão e a fila fica metros atrás esperando a vez. A Paula entrega a passagem, a moça sorri e pergunta:

- A senhora prefere na frente ou atrás?

A Paula vira-se para mim e grita:

- Tá vendo, Lula, depois dizem que sou eu que só penso besteira!

A moça da Varig não entendeu nada. Mas na fila umas dez pessoas (todas cariocas) caíram na gargalhada.
::: Catarse Publicitária :::
Lula Vieira

Uma das personalidades mais fascinantes e ao mesmo tempo mais imprevisíveis que já existiram no mundo da propaganda foi o Alfredo Monteverde, dono do Ponto Frio. Era um homem brilhante, nervoso, criativo, capaz de reagir a uma idéia com um enorme entusiasmo ou ataques de fúria. Um temperamental admirável.

Conta a lenda que um supervisor de atendimento estreou na conta do Ponto Frio, na época SGB, exatamente no dia de uma apresentação de uma campanha. Era uma daquelas colossais que o varejo fazia, com verbas imensas, capaz de mobilizar uma população inteira.

Acontece, que, naquele dia, o Monteverde estava com a macaca. Após o ritual de apresentação que terminava com a sala de reuniões parecendo uma feira. Com layouts cobrindo a mesa e as paredes, fez-se o conhecido silêncio da expectativa. Monteverde começou a falar com a voz muito cansada, denotando um esforço enorme para se controlar.

E foi demolindo cada idéia, cada anúncio, detalhe por detalhe. Do tema aos diversos títulos, layout por layout ele ia criticando tudo sem nenhuma piedade. E, à medida que falava, ia ficando irado. Da posição comedida e (quase) educada do início, foi passando para o insulto. A campanha que tinha alguns erros foi ficando cada vez mais uma merda. Os criadores que no começo tinham apenas se equivocado no enfoque passaram a ser um bando de imbecis – depois veados e, dois layouts depois, simplesmente filhos da p. Da agressão verbal, Monteverde passou para a agressão física. Já descontrolado, jogava textos, planos e storyboards em cima das pessoas. Trouxe à baila a mãe e o pai da agência inteira, até que, de repente, ele puxa um layout da mesa e derruba um cinzeiro de cristal. Completamente desesperado, o novo supervisor reagiu à altura do desvario geral. Antes que o cinzeiro chegasse ao assoalho, deu-lhe um bico que o fez atravessar a sala e arrebentar a vidraça. Ouviu-se uma ensurdecedora explosão seguida do barulho de vidro caindo e, logo depois, os gritos vindos da rua.

Mais uma vez fez-se silêncio, desta vez, aterrador. Um enorme buraco aparecia na janela. Cacos, pedaços de campanha e cadeiras viradas pelas pessoas em fuga dava, à sala um aspecto de Bósnia – ou melhor Kosovo. Dava para ouvir o arfar apavorado do contato. O que dera nele para fazer aquilo? Monteverde respirou fundo, deu um tapinha no ombro do contato e disse:

- Bem, mas a campanha também tem coisas positivas. Vamos reexaminar tudo.

E começou a reconsiderar suas próprias opiniões, cantando pedaços de papel pelo chão e reconstruindo alguns anúncios. O contato olhou para Monteverde fixamente. Moveu os lábios num esforço para falar, torceu as mãos, arregalou os olhos. E começou a chorar convulsivamente. Só faltou fechar a cortina como numa ópera.

terça-feira, junho 17, 2008

::: Como Perder Um Homem em 10 Dias :::
(Trecho do filme com o mesmo nome)

- Dia 1
Dê ele um relatório completo de todos os seus relacionamentos anteriores.

- Dia 2
Comece a se referir a ele como seu "namorado".

- Dia 3
Diga a ele que o ama. Não se preocupe que esse é somente o segundo encontro de vocês.

- Dia 4
Borrife seu perfume nos travesseiros dele para que ele sempre se lembre de você.

- Dia 5
Compre roupas que combinem para você e seu namorado. Insista para que vocês dois usem-as quando vocês saírem, assim todo mundo saberá que vocês estão juntos.

- Dia 6
Ligue para a mãe dele e se apresente. Refira-se a ele como "mãe" ou chame-a pelo primeiro nome.

- Dia 7
Ligue para ele. Ligue para ele novamente. Ligue para ele sempre que tiver um tempo livre. Se ele não atender, não deixe recado. Isso vai permitir que você continue ligando.

- Dia 8
Dê a ele uma noite sozinho com os amigos, mas vá encontrá-lo para ter certeza que ele está se divertindo.

- Dia 9
Pergunte a ele o que ele está pensando. Se ele disser "nada", acuse-o de pensar em outra mulher.

- Dia 10
Revele um segredo íntimo sobre seu namorado para os amigos e a família dele.

segunda-feira, junho 16, 2008

::: 3 am :::
Matchbox Twenty

She say it's cold outside and she hands me my raincoat
She's always worried about things like that
She says it's all gonna end and it might as well be my fault
And she only sleeps when it's raining
And she screams and her voice is straining

She says baby
It's 3 am I must be lonely
When she says baby
Well I can't help but be scared of it all sometimes
Says the rain's gonna wash away I believe it

She's got a little bit of something, God it's better than nothing
And in her color portrait world she believes that she's got it all
She swears the moon don't hang quite as high as it used to
And she only sleeps when it's raining
And she screams and her voice is straining

She believes that life is made up of all that you're used to
And the clock on the wall has been stuck at three for days, and days
She thinks that happiness is a mat that sits on her doorway
But outside it's stopped raining

quinta-feira, junho 12, 2008

::: You Give Me Something :::
James Morrison

You want to stay with me in the morning
You only hold me when I sleep,
I was meant to tread the water
Now I've gotten in too deep,
For every piece of me that wants you
Another piece backs away.

'Cause you give me something
That makes me scared, alright,
This could be nothing
But I'm willing to give it a try,
Please give me something
'Cause someday I might know my heart.

You already waited up for hours
Just to spend a little time alone with me,
And I can say I've never bought you flowers
I can't work out what the mean,
I never thought that I'd love someone,
That was someone else's dream.

'Cause you give me something
That makes me scared, alright,
This could be nothing
But I'm willing to give it a try,
Please give me something,
'Cause someday I might call you from my heart,
But it might me a second too late,
And the words I could never say
Gonna come out anyway.
::: Mea-culpa :::
Ana Paula Mangeon

Eu erro quando eu sei que está errado
Eu erro dia, não meço a hora
Erro também quando eu acho ajustado.

Eu erro quando excessiva
eu erro quando me recato.
Eu erro a idéia e o ato.

Eu erro a rua, o endereço
eu erro mão, a direção.
Eu erro o fim, o meio. Errei o começo

Eu sempre digo a palavra errada
perco a métrica, esqueço a rima.
Erro também quando não digo nada.

Erro quando sou fina e quando sou escracho
Erro se acaricio ou se esculacho
Erro quando insolente ou quando sou capacho.

Erro se esperança ou se desengano
Erro se sou a mordida ou se sou o açaimo.
Erro quando te esqueço ou se ainda te amo.

Eu erro tudo, eu erro todos.
Erro sem culpa e erro com dolo
Eu erro os meus erros e erro os dos outros

Inúteis os alvos, as miras, as metas
eu chuto na trave, por cima do muro
Eu erro no claro e no escuro.

Eu erro de longe e eu erro perto.
A meia distância sabe-se também que erro.
De tão errada, erro até mesmo quando acerto.
::: Take a bow :::
Rihanna

How about a round of applause?
Standing ovation...

You look so dumb right now
Standin' outside my house
Tryin' to apologize
You're so ugly when you cry
(Please)
Just cut it out

Don't tell me you're sorry 'cause you're not
Baby when I know you're only sorry you got caught

But you put on quite a show
You really had me going
But now it's time to go
Curtains finally closing
That was quite a show
Very entertaining
But it's over now
Go on and take a bow

Grab your clothes and get gone
(You better hurry up)
Before the sprinklers come on
Talkin' bout "Girl, I love you you're the one..."
This just looks like a re-run
(Please)
What else is on?

And don't tell me you're sorry 'cause you're not
Baby when I know you're only sorry you got caught

But you put on quite a show
You really had me going
But now it's time to go
Curtains finally closing
That was quite a show
Very entertaining
But it's over now
Go on and take a bow

And the award for the best liar goes to you
For making me believe
That you could be
Faithful to me
Let's hear your speech
oh...

How bout a round of applause?
Standing ovation...

But you put on quite a show
You really had me going
But now it's time to go
Curtains finally closing
That was quite a show
Very entertaining
But it's over now
Go on and take a bow

But it's over now...


-------------------------------------
Tradução

Que tal uma salva de palmas?
Uma ovação em pé

Você parece tão idiota agora
Parado ai fora da minha casa
Tentando se desculpar
Você fica tão feio quando chora
Por favor, corta essa

Não diga me que você está arrependido porque não está
Baby, sei que você se arrepende somente porque foi pego

Mas você monta o seu showzinho
E realmente me faz acreditar
Mas agora é hora de ir
As cortinas finalmente estão se fechando
Aquilo foi apenas um show
Muito interessante
Mas acabou
Vá e siga em frente

Pegue suas roupas e saia (melhor se apressar)
Antes que a chuva venha
Falando "Garota eu te amo, você é única"
Isso parece como um reatamento
Por favor, o que mais vai dizer?

E não diga me que você está arrependido porque não está
Baby, sei que você se arrepende somente porque foi pego

Mas você monta o seu showzinho
E realmente me faz acreditar
Mas agora é hora de ir
As cortinas finalmente estão se fechando
Aquilo foi apenas um show
Muito interessante
Mas acabou
Vá e siga em frente

E o prêmio de melhor
Mentiroso vai para você
Por me fazer acreditar
Que você poderia ser fiel a mim
Vamos ouvir seu discurso

Que tal uma salva de palmas?
Uma ovação em pé

Mas você monta o seu showzinho
E realmente me faz acreditar
Mas agora é hora de ir
As cortinas finalmente estão se fechando
Aquilo foi apenas um show
Muito interessante
Mas acabou
Vá e siga em frente

Mas acabou...

sábado, junho 07, 2008

::: Diga não aos covardes :::
Tati Bernardi

Um brinde aos passos minúsculos desses seres rastejantes. Andam na velocidade de uma boa notícia quando a ansiedade já extrapolou a lógica da espera.

Chega de meias bocas pra preencher profundos vazios. Meias bocas para beijar entradas inteiras. Meios beijos de respeito na testa. Meias palavras para dizer alguma coisa que, feita a análise fria, nada querem dizer.

Intenções soltas e desejos desconexos. Esse mistério todo é uma violência contra a minha inteligência. Sejamos diretos para não sermos idiotas: eu te quero. Você me quer? Não sabe? Ah, então vá pra puta que te pariu. (E vá ser vago na casa da sua mãe porque embaixo da sua manga eu não fico mais!)

Este rebolado colorido que descola de seu cenário pastel, vem de meu ventre. Livre. Portanto não tente me escravizar, nem com promessas, intelectualidades, ou uma pegada daquelas.

Este rebolado é quase que instintivo, meu jeito, nada sutil, apesar de ser essa a intenção, de te mostrar que há chances de ultrapassagem.

Seja inteligente, faça jus à espécie, seja Sapiens. Perceba o sinal verde, ultrapasse.

Não sabe se quer acelerar o motorzinho? Então vá treinar com uma boneca, uma revista, uma prima, a chata da sua mulher, a sem-sal da sua namorada ou o raio que os parta todos os mornos.
Eu não sou morna e, se você não quiser se queimar, morra na temperatura do vômito. E bem longe de mim.

Ou venha me ajudar a ferver essa banheira. Vamos ficar cegos de vapor e vermelhos de vida. É sangue que corre nos meus sentimentos e não o enjôo morno de uma vida que se vai empurrando com a barriga.

Barriga que vai crescer no sofá imundo dos acomodados.

Eu ainda quero muito. Quero as três da manhã de um sábado e não as sete da tarde de uma quarta. Vamos viver uma história de verdade ou vou ter que te mandar pastar com outras vaquinhas?

Docinho vá fazer pra quem gosta de lamber o seu cuzinho, porque aqui nessa boquinha só entra cher nourriture . Vá contar esse seu papinho de "Hey, you never know" pra quem conta com a sorte e sabe esperar. A sorte é sua de ser amado por mim e eu quero agora, ontem, semana passada.

Amanhã não sei mais das minhas prioridades: posso querer dormir com pijama de criança até meio-dia, pagar 500 reais numa saia amarela, comer bicho-de-pé no Amor aos Pedaços ou quem sabe dar para o seu chefe em cima da mesa dele.

Minha vontade de ser feliz é como a sua de gozar. E se eu te iludisse de tesão e levantasse rápido para retornar a minha vida? Você continuaria se fodendo sozinho para fugir da dor: é assim que vivo, masturbando minha mente de sonhos para tentar sugar alguma realização. É assim que vivo: me fodendo.

Chega de ser metade aquecida, metade apreciada, metade conhecida. Chega de ser metade comida em meios horários e meio amada em histórias pela metade.

Chega de sorrir para o que não me contenta e me cobrar paciência com um profundo respiro de indignação. Paciência é dom de amor aquietado, pobre, pela metade. Calma, raciocínio e estratégia são dons de amor que pára para racionalizar. Amor que é amor não pára, não tem intervalo, atropela.

Não caio na mesma vala de quem empurra a vida porque ela me empurra. Ela faz com que eu me jogue em cima de você, nem que seja para te espantar.

Melhor te ver correndo pra longe do que empacado em minha vida.

quarta-feira, junho 04, 2008

::: Olhos Certos :::
Detonautas

Tento te encontrar
Tanto pra dizer
Meu amor, tudo bem

Sorte de nós dois
Quero te fazer feliz
Meu amor, sempre quis

Seus olhos certos mas não sei o que dizer
Eu não vou mas o tempo vem
Tá tudo certo mas não sei o que dizer
Eu não vou, mas o tempo vem aqui

Tento te encontrar
Tanto pra dizer
Meu amor, tudo bem

Mesmo sem te ver
Não chegou ao fim
Seu amor, tudo em mim

Se não for mais do que tento ser
Se não for mais

Se não for mais do que tento ser
Se não for

Seus olhos certos mas não sei o que dizer
Eu não vou mas o tempo vem
Tá tudo certo mais não sei o que dizer
Eu não vou mas o tempo vem aqui.

segunda-feira, junho 02, 2008

::: Camerata :::
Ana Paula Mangeon

Que pena.

O corpo dominado
não lhe acompanha
quando seu pensamento
pela minha cama
passeia

No sono sedento,
Finjo repouso.
Nego canibalismos
e perpetuo o jejum.

Você insiste.
Instiga
depois, desiste.

Olho para o céu
e conto os segundos.
Os astros revelam
a coragem minguante.

Me larga sozinha,
me vingo adiante.
Conheço o ímpeto
Que lhe norteia;

Da mesma matéria,
Somos alma e hormônio.
Estarei lhe esperando
Na próxima lua cheia.

sábado, maio 24, 2008

::: Se :::
Ana Paula Mangeon

Se eu não fosse tão intensa,
se eu não fosse tão direta,
se eu não fosse tão eloqüente,
se eu não fosse tão convincente,
se eu não fosse tão prepotente,
se eu não fosse tão egoísta,
se eu não fosse tão narcisista,
se eu não fosse tão vaidosa.

Se eu tivesse mais delicadeza no falar,
mais inocência no olhar,
mas suavidade no tocar.

Se eu tivesse mais medo das coisas,
tivesse mais pudores e mais receios,
tivesse menos mistério e mais segredos.

Se eu fosse menos ação e mais palavra,
fosse menos gesto e mais poesia,
fosse menos lascívia e mais harmonia

Talvez essa sexta feira
ficasse um pouco menos vazia.
::: Tome-me de assalto :::
Ana Paula Mangeon

Tudo verte em meu olhar
para o espelho d'um outro olhar
que alcance minha fragilidade mais escondida.

E me tome nos braços
e me deixe calada e entorpecida
Imóvel e incapaz de sair.

Quero alguém
que vede todas as rotas de fuga
que criei para evadir de mim.

O negócio, moço,
é invadir minha vida de repente
e me deixar, assustada, assistir.

::: Odeio esse texto :::

Tati Bernardi

Eu tenho, você tem e eu duvido que aquele cara ajoelhado na frente do santo ou aquela mulher descalça numa ciranda espírita não tenham: ódio. E eu não sou só isso, eu não sou assim o tempo todo, eu não me baseio nisso. Mas, sim, eu odeio, e como. E a cada dia eu odeio mais conscientemente, a cada ano eu odeio mais especificamente e a cada noção da vida eu odeio mais verdadeiramente. Eu odeio que encostem o cotovelo, a bunda ou uma cerveja molhada em mim enquanto eu tento encontrar um espaço para dançar. Eu odeio que encostem em mim, odeio a pele de um desconhecido indesejado. Odeio homens com camisetinhas justas e colares. Odeio garotas de nariz empinado em suas calças que de tão apertadas fedem corrimento. Odeio meninas ensebadas que mexem demais no cabelo e olham para os lados com vergonha da própria existência. Odeio homens que olham para bundas como se admirassem uma carne pendurada no açougue e odeio mais ainda quando fazem bico e aquele sim com a cabeça, tipo "concordo com o mundo que ela é muito gostosa". E se ele fizer aquela chupada pra dentro do tipo "hmmmmm delícia" já é algo que ultrapassa os limites do meu ódio. Bater o dedinho do pé na quina, futebol pelo rádio, pessoas felizes demais, bocejos, mania de batuques (sim, foi para você), cigarro enquanto eu tô comendo (ou a qualquer hora), mau atendimento em restaurante (ou em qualquer lugar) e pessoas que não sabem chupar laranja ou tomar sopa sem sonoridades.


Odeio quem ignora a necessidade do desodorante, do retoque na raiz preta e da hora de parar com a comida. Odeio que faça sol se preciso de uma desculpa para não sair de casa. Odeio chuva se tenho roupas novas de verão. Odeio amigas que fazem sexo anal e me contam e eu passo o resto da vida sentindo um cheiro ruim quando encontro com elas. Flanelinhas, patricinhas, nominhos carinhosos para o namoradinho e frases carinhosas para o namoradinho no diminutivo. Odeio não ter um filho da puta nesta terra que sirva para meu namorado. Odeio mau hálito e mais ainda o fato de que justamente as pessoas podres são aquelas que falam mais baixo e nos obrigam a ter que chegar perto. Eu odeio machismo, submissão e mais do que tudo isso ter que ser forte o tempo todo e não ter um ombro másculo para chorar até minha última gota desamparada.


Eu odeio com toda a força do meu ódio o telemarketing e que me chamem de "senhora Tatiana" duzentas vezes por minuto. Eu odeio quando ligo no banco para saber o quanto estou negativa e a puta computadorizada me oferece algum superproduto premiado. (Eu estou negativa porra! Como vou investir? E meu nome é Tatianeeeeeeee ­ odeio meu nome mas é meu). Odeio todas as meninas bonitas do ginásio que já tinham peitos e bundas naquela época e hoje provavelmente devem estar caídas e usadas. Odeio o professor Nicola que me mandou calar a boca porque era um lixo de professor mas queria aparecer. Odeio muito mais do que telemarketing que empurrem a minha cabeça para fazer sexo oral: a chupetinha comandada! Vai abaixar a cabeça da sua mãe, seu filho da puta! E vê se aprende logo que não precisa enfiar a língua lá no fundo e fazer aquela cara de nojo, lambe o clitóris e mostre que você sabe mais do que quem foi o campeão do Brasileirão de 89. Odeio homossexuais enrustidos que usam a desculpa para não pegar uma mulher "ah, eu só pego de modelo pra cima". Odeio homens.


Toques de celular personalizados, tatuagem tribal e a nova moda das atrizes-modelos-manequins de tatuar as inicias do namorado da semana. Odeio bolsas Louis Vuitton, elas são feias e caras e quem usa é a típica lânguida que eu odeio, de rosto fino, cabelo fino e cérebro fino do fino shopping Iguatemi. Odeio bunda muito grande porque bunda muito grande é coisa de pobre. Odeio minha bunda ser pequena e eu ser pobre. Odeio todas as bandas de rock que se parecem, as músicas de negro que se parecem e as meninas da Faria Lima que se parecem. Odeio ter vontade de fazer cocô logo depois que eu tomei banho. Odeio o fim do sexo com aquela lambuzeira toda, odeio o meio do sexo porque minha cabeça quase sempre está em outro lugar e eu quase sempre finjo orgasmo. Odeio quando amo o sexo e o filho da puta some e eu passo mais um tempão para gostar de sexo de novo.


Odeio pessoas muito oleosas, muito peludas, muito suadas e acima de tudo meninas que cheiram a lavandas e gostam de adesivos de ursinho. Odeio as pessoas que eu amo muito, tipo minha mãe. Odeio que me mandem falar mais baixo e odeio que falem alto. Odeio que me olhem e que não me vejam. Odeio pentelho na minha garganta. Odeio comerciais com crianças vestidas de branco correndo no campo com flores amarelas, aquele japonezinho que faz cocô e aperta o tirador de fedor do banheiro e odeio muito, mas muito, mas muito mesmo, as lojas Marabrás. Odeio bijuteria dourada mais do que qualquer telemarketing ou chupadinha comandada. Odeio brilho em vestidos... agora, cascata de neon em formatura está acima dos meus poderes em odiar.

Odeio quem comemora porque passou numa faculdade que meu primo de 8 anos passaria e quem diz "peguei a mina". "Pega no meu pau, muleque!" Odeio bolsa de couro sintético combinando com o sapato de couro sintético (se as fivelas combinarem eu posso enfartar a qualquer momento). Odeio quem comemora o aniversário no rodízio de pizza do Viena e quem não pode perder o novo filme do Ben Affleck. Odeio numa proporção assustadora o Outback do Shopping Eldorado. (Se você vai num restaurante de shopping vagabundo com um nome industrializado sem charme desses e ainda acha divertido escorregar na gordura do chão não leia meus textos, por favor.)

Odeio os Estados Unidos mas odeio muito mais o fato de a gente ter sangue europeu mas ficar imitando esses estúpidos, que também têm sangue europeu mas são estúpidos por herança criada. Odeio a frase "eu vou no super, comprar umas cervas para o churras". Odeio cariocas que se acham superiores só por causa da praia mas vêm ganhar dinheiro aqui. Odeio cariocas que se acham fodas porque já saíram com alguma atriz da Globo e todos já saíram. Odeio a vontade que eu sinto de rebolar quando escuto aquela imbecil da Britney Spears, odeio ter chorado no Titanic e odeio assistir Celebrity Profile pra saber o que a Pamela Anderson faz além de ter dor nas costas (porque não deve ser fácil carregar duas jacas diariamente). Mas eu assisto.


Odeio quem passa o dia no shopping com a família, churrascaria com aquele desfile de bichinhos mortos, principalmente porque você está lá tranqüilamente comendo e vem alguém com um espeto (que é grosseiramente imposto ao seu lado), te espirra sangue, fala um nome idiota e você nunca sabe exatamente de que parte se trata.

Odeio homem que arrota aquele assoprinho que precede a explosão do chopp, sabe? Odeio com cada célula do meu corpo os "moke-up" de sobremesa em lojas de doces e alguns restaurantes. Odeio quem casa virgem, odeio quem chega em casa depois de uns malhos no carro e enfia o dedo no meio das pernas porque tava louca para dar mas "ele ia me achar muito fácil". Mas eu também odeio mulher que sai dando pra meio mundo e perde o mistério. Sei lá, essa coisa toda de dar vai ser sempre uma dúvida. Odeio dúvidas.


Odeio meninas caçadoras de homens ricos mas odeio sair com um cara que está tentando começar um relacionamento e ter que rachar a conta, seria mais simpático me deixar pagar a conta toda. Rachar é péssimo. Odeio aquele filme da loira e da morena do David Lynch, odeio as pessoas que não entendem que Felicidade veio antes de Beleza Americana e odeio quem odeia o Woody Allen.


Dividir banheiro, pêlo alheio em sabonete, acordar cedo e meninas adolescentes peruas com voz de pato. Odeio gordinhas que dizem "é que eu tenho a estrutura óssea larga" e dá-lhe brigadeiro em frente à televisão. Odeio aquele velho filho da puta me olhando na mesa ao lado, com três crianças penduradas no pescoço e uma mulher com culote comendo abacaxi para ajudar na digestão do javali. Odeio a típica família e suas árvores de Natal cheias de rancor, e os doces das tias cheias de rancor, e as crianças lindas correndo querendo que o priminho morra porque ganhou mais brinquedos. Odeio o tapinha dos homens e o beijinho em falso das mulheres. Prefiro virar a cara, prefiro cuspir, prefiro odiar, quando eu era criança sonhava todas as noites que arrancava os olhos de todo mundo e só eu podia enxergar o quanto era feio eu ser como sou.

quarta-feira, maio 21, 2008

::: Para que serve um amigo? :::
Martha Medeiros

Para que serve um amigo?
Para rachar a gasolina, emprestar a prancha, recomendar um disco, dar carona pra festa, passar cola, caminhar no shopping, segurar a barra...
Todas as alternativas estão corretas, porém isso não basta para guardar um amigo do lado esquerdo do peito.
Um amigo não racha apenas a gasolina: racha lembranças, crises de choro, experiências. Racha a culpa, racha segredos.
Um amigo não recomenda apenas um disco. Recomenda cautela, recomenda um emprego, recomenda um país.
Um amigo não dá carona apenas pra festa. Te leva pro mundo dele, e topa conhecer o teu.
Um amigo não segura a barra, apenas. Segura a mão, a ausência, segura uma confissão, segura o tranco, o palavrão, segura o elevador.

Dúzias de amigos assim ninguém tem. Se tiver um (e às vezes ele pode ter até 4 patas), amém.

domingo, maio 18, 2008

::: Amores impossíveis :::
Tati Bernardi

Desculpem o trocadilho infame, mas a vida é feita de altos e baixos. Altos, fortes, morenos, sensuais, possíveis e aquele baixinho, meio esquisito, que não sai da sua cabeça.
Impressionante como a gente sofre por nada. Um cheiro que mexe com você, um jeito de olhar contido, uma idéia inteligente, várias na verdade. Não, não é nada disso, a gente sofre é pela impossibilidade.
Desde que o mundo é mundo não há nada mais afrodisíaco do que a proibição.
E se a Julieta tivesse visto o Romeu acordar com mau hálito? E se o Romeu descobrisse o chulé da Julieta? Convivência é foda.
Pois é, aquele baixinho esquisito não pertence ao grupo dos amores possíveis, a graça dele pode durar uma eternidade, dependendo do seu grau de estupidez criativa.
Ele não quer nada com você, já tem alguém, pertence a um caminho que passa longe do seu, sabe cumé? Pertence ao campo dos idealizados, sonhados e distantes, o que faz dele enorme, lá no pedestal.
E nada melhor do que as lacunas da improbabilidade para esquentar uma paixão. Nessas lacunas você tem espaço para criar a história como quiser, ganha poder, inventa. Ele é seu, seu personagem.
Nesses espaços livres você coloca todos os seus sonhos, toda a sua imaginação. Cenas completas com fundo musical e palavras certas, finais e desfechos inesperados.
Quando você menos espera, ele faz mais parte da sua vida do que você mesma.
Mas a realidade aparece mais cedo mais tarde, vem como uma angústia. Parece vontade de fazer xixi, mas é tesão reprimido. Tesão reprimido deve dar câncer. Era só um cara interessante, agora pode te matar.
Pronto, você está apaixonada. E a paixão tem suas etapas.
Primeiro a negação: eu apaixonada? Imagina. Ele é impossível, nunca vai me dar bola, muito menos duas com o que eu quero no meio.
Depois a maximização: ele é mais inteligente, mais bonito, mais engraçado. E todos os mais possíveis para que ele seja mais desafio para você, mais inveja para as suas amigas, se você aparecer com ele na festa, mais fadinhas dançantes para fazer cosquinha no seu ego problemático.
Daí é a vez da "superlativização": em vez de ser mais, ele é "o mais", o mais fodido, o mais inteligente e o mais gostoso.
E você está a um passo do endeusamento: "ele é único", aí fodeu.
Se ele é único, ele é a sua única chance de ser feliz. E, se ele não quer nada com você, você acaba de perder a sua única chance de ser feliz. Bem-vinda à depressão.
Como você é ridícula, amor platônico é para adolescentes.
Lá fora há milhares de possibilidades de felicidade, de felicidades possíveis. De realidade. E você eternamente trancada na porta que o mundo fechou na sua cara. Fazendo questão de questionar e atentar o inexistente.
Vá viver um grande amor.
Olha, faça um favor para mim, antes de tremer as pernas pelo inconquistável e apagar as luzes do mundo por um único brilho falso, olhe dentro de você e pergunte: estupidez, masoquismo ou medo de viver de verdade?

sexta-feira, maio 16, 2008

::: Rosas :::
Ana Carolina

Você pode me ver
Do jeito que quiser
Eu não vou fazer esforço
Prá te contrariar
De tantas mil maneiras
Que eu posso ser
Estou certa que uma delas
Vai te agradar

Porque eu sou feita pro amor
Da cabeça aos pés
E não faço outra coisa
Do que me doar
Se causei alguma dor
Não foi por querer
Nunca tive a intenção
De te machucar...

Porque eu gosto é de rosas
E rosas, de rosas
Acompanhadas de um bilhete
Me deixam nervosa...

Toda mulher gosta de rosas
E rosas, de rosas
Muitas vezes são vermelhas
Mas sempre são rosas...

Se teu santo por acaso
Não bater com o meu
Eu retomo o meu caminho
E nada a declarar
Meia culpa cada um
Que vá cuidar do seu
Se for só um arranhão
Eu não vou nem soprar

quarta-feira, maio 14, 2008

::: She :::
Elvis Costello (Trilha sonora do filme Um Lugar Chamado Notting Hill)

She
May be the face I can't forget
The trace of pleasure or regret
May be my treasure or the price I have to pay
She
May be the song that summer sings
May be the chill that autumn brings
May be a hundred different things
Within the measure of a day

She
May be the beauty or the beast
May be the famine or the feast
May turn each day into a heaven or a hell
She may be the mirror of my dreams
The smile reflected in a stream
She may not be what she may seem
Inside her shell

She
Who always seems so happy in a crowd
Whose eyes can be so private and so proud
No one's allowed to see them when they cry
She
May be the love that cannot hope to last
May come to me from shadows of the past
That I'll remember till the day I die

She
May be the reason I survive
The why and wherefore I'm alive
The one I'll care for through the rough in ready years
Me
I'll take her laughter and her tears
And make them all my souvenirs
For where she goes I've got to be
The meaning of my life is

She
She, oh she

segunda-feira, maio 12, 2008

::: Dos amores que sei e não sei. :::
Ana Paula Mangeon

Nada sei desse amor encapsulado num só corpo
Desse amor olho, nariz e orelha
Desse amor com endereço e código postal
Desse amor dominical sagrado
Desse amor coerente, desse amor ajustado

Nada sei desse amor namorada e namorado.
Desse amor de acordar do lado
Desse amor cara amassada,
Desse amor escovas de dente.
Desse amor devoto, desse amor escravo.

O amor que sei é aquele que levo comigo
Que passeia na noite, que quer pouso não casa.
Que quer a porta da rua, janela.
Amor delicado sim, mas etéreo.
Amor sem esperança, mas esperado.
Amor amorfo, amor errante.
Amor sem sobrenome, amor instante.

O amor que sei é o amor que de tão breve e tão a esmo
no momento em que se consuma acaba consumido por si mesmo.

domingo, maio 11, 2008

::: Amor não se pede :::
Tati Bernardi

Uma declaração de amor revoltado.

Se implorar resolvesse, não me importaria. De joelhos, no milho, em espinhos, agachada, com o cofrinho aparecendo. Uma loucura qualquer, se ajudasse, eu faria com o maior prazer. Do ridículo ao medo:pularia pelada de bungee jump. Chorar, se desse resultado, eu acabaria com a seca de qualquer Estado, de qualquer espírito.

Mas amor não se pede, imagine só. Ei, seu tonto, será que você não pode me olhar com olhos de devoção porque eu estou aqui quase esmagada com sua presença? Não, não dá pra dizer isso. Ei, seu velho, será que você pode me abraçar como se estivéssemos caindo de uma ponte porque eu estou aqui sem chão com sua presença? Não, você não pode dizer isso. Ei, monstro do lixo, será que você pode me beijar como um beijo de final de filme porque eu estou aqui sem saliva, sem ar, sem vida com a sua presença? Definitivamente, não, melhor não.

Amor não se pede, é uma pena. É uma pena correr com pulinhos enganados de felicidade e levar uma rasteira. É uma pena ter o coração inchado de amar sozinha, olhos inchados de amar sozinha. Um semblante altista de quem constrói sozinho sonhos. Mas você não pode, não, eu sei que dá vontade, mas não dá pra ligar pro desgraçado e dizer: ei, tô sofrendo aqui, vamos parar com essa estupidez de não me amar e vir logo resolver meu problema?

Mas amor, minha querida, não se pede, dá raiva, eu sei. Raiva dele ter tirado o gosto do mousse de chocolate que você amava tanto. Raiva dele fazer você comer cinco mousses de chocolate seguidos pra ver se, em algum momento, o gosto volta. Raiva dele ter tirado as cores bonitas do mundo, a felicidade imensa em ver crianças sorrindo, a graça na bobeira de um cachorro querendo brincar.

Ele roubou sua leveza mas, por alguma razão, você está vazia. Mas não dá, nem de brincadeira, pra você ligar pro cara e dizer: ei, a vida é curta pra sofrer, volta, volta, volta. Porque amor, meu amor, não se pede, é triste, eu sei bem.

É triste ver o Sol e não vê-lo se irritar porque seus olhos são claros demais, são tristes as manhãs que prometem mais um dia sem ele, são tristes as noites que cumprem a promessa. É triste respirar sem sentir aquele cheiro que invade e você não olha de lado, aquele cheiro que acalma a busca. Aquele cheiro que dá vontade de transar pro resto da vida. É triste amar tanto e tanto amor não ter proveito. Tanto amor querendo fazer alguém feliz. Tanto amor querendo escrever uma história, mas só escrevendo este texto amargurado. É triste saber que falta alguma coisa e saber que não dá pra comprar, substituir, esquecer, implorar. É triste lembrar como eu ria com ele.

Mas amor, você sabe, amor não se pede. Amor se declara: sabe de uma coisa? Ele sabe, ele sabe.

terça-feira, maio 06, 2008

::: Não confunda... :::
Ana Paula Mangeon

Nada disso vale nada, cara.
É momento.
Eu só sei dessas felicidades instantâneas.
Depois tudo some, feito Polaroid.

Eu só sei desse vazio onde ecoa o meu nome.

Difícil se livrar da solidão
uma vez que a gente acostuma
e mal percebe a estupidez
que é confundi-la com liberdade.